
Não precisa ser nenhum gênio para entender a importância deste tratamento para a humanidade
Acabou o carnaval. Pelo calendário não oficial brasileiro, o ano começa agora. De verdade. Aguardando ainda o fim das polêmicas, desnecessárias na sua imensa maioria. Quem sabe a quaresma ajude. Deixemos o assunto de fantasias, alegorias, latas e outros temas afins para o carnaval de 2027.
Escrevi aqui na semana passada sobre a alegria de ver um artigo de minha filha mais nova publicado em uma Revista Científica. Falava eu daperpetuação do sobrenome Andrade. Orgulho e alívio.
Mas um assunto extremamente importante, do ponto de vista científico, vem tomando espaço. Os resultados da pesquisa com a polilaminina, molécula capaz de reverter lesões medulares e, obviamente, gerar um grande avanço na Medicina.
A pesquisa com a polilaminina é feita há quase três décadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ -, liderados pela pesquisadora Tatiana Sampaio, em parceria com um laboratório privado.
Como resultado do sucesso da pesquisa, Bruno Drummond de Freitas, bancário paulista de 31 anos, voltou a andar depois de ter ficado tetraplégico em um acidente automobilístico em 2018.
E é muito bom vermos um tetraplégico andar, não por milagre ou outras intervenções de natureza metafísica. Mas sim da velha e boa ciência mesmo. Não vou entrar nos detalhes científicos da pesquisa. Há muita informação recente disponível na mídia.
O fato é que a pesquisadora Tatiana Sampaio se tornou de uma hora para outra uma popstar. Com todos os méritos, principalmente em um país que se interessa, principalmente nesta época do ano, mais por rainhas de bateria.
Há também um lado importante, pouco comentado, que reflete como é tratada a ciência no Brasil. Não precisa ser nenhum gênio para entender a importância deste tratamento para a humanidade.
Sim, para a humanidade, já que devem haver milhares ou até mesmo milhões de pessoas pelo mundo que poderiam recuperar os movimentos graças aos resultados da pesquisa brasileira.
Quanto vale isso? Certamente algumas dezenas ou centenas de milhões. De dólares. Mas, incrivelmente, perdemos a patente internacional da polilaminina.
O que isso significa? Que o esforço de quase três décadas de pesquisa pode ser “copiado” e comercializado por outros laboratórios.
E o motivo de perder a patente? Cortes no orçamento da UFRJ em 2016. E por alguns milhares de reais perdemos centenas de milhões de dólares.
A pesquisadora Tatiana inclusive pagou durante um tempo, do seu bolso, os custos do registro nacional da patente da polilaminina.
A importância do conhecimento como fator fundamental no desenvolvimento econômico já é consenso na teoria econômica desde os anos 80 do século passado. A segunda década do século XXI, com o advento da Inteligência Artificial só reforça essa importância.
Talvez não nos demos conta de que neste momento milhares de pesquisadores anônimos estão nos seus laboratórios produzindo ciência.
Muitas vezes, sem nenhum resultado “extraordinário”. Nos acostumamos ao efêmero, ao sucesso rápido que é descartado com rapidez. Pela valorização da ciência brasileira, façamos algo mais perene.













