Articulista
José Roberto de Lima Andrade

É economista, professor da UFS e presidente do SergipePrevidência. Escreve às sextas.

Esse tal de mercado financeiro
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Milton Nascimento: como ele, contribuí para “muita gente boa botar o pé na profissão”

Nesta sexta, 27 de março, inicio mais um período lecionando a disciplina de Finanças para os alunos de Economia da UFS. E lá vamos nós ensinar, com a profundidade que o tema requer, a teoria, a prática e as interrelações desse tema tão importante.

Comecei a abordar o assunto lá no início dos anos 2000, quando os bancos começaram a exigir certificações profissionais de seus gerentes. Entre profissionais do mercado financeiro e uma quantidade grande de ex-alunos, fico feliz em, como dizia o grande Milton Nascimento, ter contribuído para “muita gente boa botar o pé na profissão”.

Confesso que as coisas tem ficado difíceis nos últimos anos. A concorrência com “conteúdos simples e soluções milagrosas” que proliferam nas redes sociais tem sido grande. Além disso, há por um lado, um certo glamour juvenil sobre o mercado financeiro, muitas vezes associado a muito dinheiro, pouco trabalho e muito “talento”.

Do outro lado, há também um certo preconceito, também juvenil, associando finanças a quase todas as mazelas que acontecem no mundo. Lugar de gente “ruim” e mal intencionada. Quase impossível ascender aos céus trabalhando no mercado financeiro.

Vivenciei semana passada uma situação interessante, relacionada a aprovação de um projeto de lei na área de previdência. Entre as poucas críticas - o projeto foi aprovado com apenas dois votos contrários -, há uma que se destacou.

O perigo que a aposentadoria dos servidores do Estado de Sergipe estaria correndo, já que ficaria sujeita “aos riscos do mercado financeiro”.

Já tinha escutado esse mesmo argumento há alguns anos em um debate no curso de Economia. Meu argumento é que, alunos de economia terem “medo” do mercado financeiro é semelhante a médicos terem medo de sangue. Melhor mudar de curso.

Mas afinal, o que é esse tal de mercado financeiro? Mercados em geral são definidos como um espaço - não necessariamente limitados espacialmente - onde se relacionam consumidores e produtores de determinado bem ou serviço. Isso vale para dinheiro, carros, softwares e amendoim cozido.

No caso do mercado financeiro, o bem comercializado é dinheiro. Capital, no bom economês. E por que comprar e vender dinheiro? No mundo real, há agentes econômicos - pessoas, empresas, governos - que são superavitários ou deficitários de capital. Cabe ao mercado financeiro “juntar as pontas” entre superavitários e deficitários.

O mercado financeiro, principalmente no Brasil, consequência de décadas de inflação, vem se aperfeiçoando. E nesse aperfeiçoamento, obviamente crescem os riscos, principalmente os de regulação e controle. Vide caso recente do Banco Master.

Mas associar todo o mercado financeiro a problemas de má atuação de um outro agente é de um reducionismo absurdo. Quantos de nós financiamos nossas casas, veículos, aplicamos nossos recursos, fazemos seguro, pagamos via pix, etc. Isso tudo é mercado financeiro.

A primeira coisa que veio na minha cabeça quando li o conteúdo das críticas, foi aonde alocar os recursos da Previdência se não no mercado financeiro? No cofre? Embaixo do colchão? 

Pessoas, empresas, governos, sindicatos, igrejas, enfim, quem não utiliza no seu dia a dia o mercado financeiro? Para mim, o problema é quando o capital começa a circular fora dele.

Uma informação importante: o Fundo de Previdência complementar -fundo de pensão - dos servidores públicos do Estado de Sergipe está entre os três com maior rentabilidade no Brasil, considerando um período de cinco anos. Há um mundo competente – e sergipano - fora da Faria Lima. No mais, profissionalismo, governança e fiscalização. Sem medo.

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