Articulista
Christina Ramalho

É escritora e professora da Universidade Federal de Sergipe. Escreve às segundas.

O (i)mundo, infelizmente, não é terreno de justiça e paz
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Quanto vale a liberdade de um estuprador milionário? Um milhão de euros tá bom?

Quanto vale a liberdade, ainda que provisória, de um estuprador? Segundo a lei espanhola, um milhão de euros. E lá vai mais um homem condenado por violência contra uma mulher viver um ano livre à espera da decisão sobre seu recurso.

Mais um homem não: “o” homem, “o” famoso, “o” ídolo. Repetirei a pergunta, modificando-a, para ser mais precisa: quanto vale a liberdade, ainda que provisória, de um estuprador milionário?

Resposta: um milhão de euros. E se for um estuprador não milionário? Bem, aí resta a prisão mesmo. Normal. O mundo é dos ricos e poderosos.

O que importa, nesse caso, não é, minimamente, o estupro, mas a condição financeira de quem o cometeu. Aliás, a sentença já havia sido “atenuada” com o pagamento de 150 mil euros.

O outro “herói” estuprador do futebol brasileiro vai penar por aqui mesmo. Mas, com a grana que também tem -esperou, numa mansão, a decisão sobre vir cumprir a pena no Brasil -, é capaz de comprar um fã clube e ser homenageado em eventos, tal como ocorreu com um homicida que voltou a ser ídolo do futebol após sair da cadeia.

Para esses homens, sempre há “parças” dispostos a investir em rumos menos sofridos para heróis tão famosos. Estupradores ou homicidas, pouco importa.

São referências nacionais e internacionais e, por isso, parecem ter direito à empatia, direito a serem tratados como “garotos que fizeram besteira”. Coitados. Realmente, é comovedor.

Depois de meses e meses ouvindo falar dos crimes de estupro cometidos por dois dos “heróis” do futebol brasileiro, resta o sabor amargo de constatar que, de fato, somos massa de manobra.

Ficamos reféns das notícias, acreditando nelas, quando, na verdade, tudo se resume em grana. Pior. Sabemos que, quando a grana não consegue comprar o objeto de desejo desses heróis, os caminhos da violência são de fácil acesso, e a punição, diferenciada.

Aliás, depois da revelação do últimoo domingo sobre os mandantes do assassinato de Marielle Franco e, por tabela, de Anderson, essa verdade se reafirma, ainda que em outro âmbito penal: o homicídio.

O responsável por desvendar o crime era, afinal, segundo a própria Polícia Federal afirma, um dos envolvidos na arquitetura macabra de tudo o que aconteceu. A mola disso tudo? Grana.

No futuro, podemos esperar que esses homens todos sejam alçados novamente ao poder, dentro de suas áreas de atuação. E, dependendo da grana investida, podem mesmo chegar à liderança religiosa, como aconteceu com o assassino de Daniela Perez, que o coisa-ruim levou para passear nos seus aposentos em 2022.

Sinceramente, não há muito o que esperar deste mundo. A grana e a violência movem todos os setores da sociedade. Muitas vezes com o aplauso da própria sociedade - basta ver o “sucesso” dos criminosos milionários e a horda de “armamentistas”, homens e mulheres, que o Brasil recente revelou, inclusive em “flashes” dentro de templos e igrejas.

Quem tenta escapar disso pode até ter alguns momentos de paz. Mas é impossível o isolamento total, porque amamos pessoas, e a dor delas também nos atinge. Ficam o luto e a luta. O desgosto e a descrença. A revolta e o nojo, a dor e a compaixão pelas tantas e tantas mulheres que têm suas vidas destruídas pela violência do estupro e pelas tantas e tantas mulheres para quem a morte é apenas um registro policial que, pouco a pouco, vai se apagando da memória do mundo.

O (i)mundo, infelizmente, não é terreno de justiça e paz.

Foto: Kato Blackmore

 

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Karina Liberal
Um absurdo jurídico e que prova que a sociedade baseada nos padrões europeus é totalmente falido... Precisamos evoluir
Maria Roseneide Santana dos Santos
Palmas, professora Christina! E, a se confirmar o pagamento de mais de 5 milhões de reais feito pelo Memphis Depay, jogador holandês e um parça do estuprador, não podemos deixar de colocar em relevo o fato de ele ser um dos poucos jogadores que não aceitou o sobrenome do pai na camisa. Segundo sua biografia, Memphis e a mãe foram abandonados, quando ele tinha 4 anos. Depois, o segundo pai também abandonou a família, quando ganhou um grande prêmio em jogo. Não deixa de ser uma trágica ironia o jogador usar sua fortuna para salvar um estuprador da cadeia.