Articulista
Christina Ramalho

É escritora e professora da Universidade Federal de Sergipe. Escreve às segundas.

Pontos de vista
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Ponto de vista seria algo carregado de maturidade e responsabilidade

Um dos termos mais significativos para mim é “ponto de vista”. Eu, que tenho sempre o olhar derramado para as coisas, entendo que compreender o elo entre quem vê, o que se vê e como se vê é fundamental para que todo o processo resultante dessa relação entre o observador e o que se observa seja compreendido, incluindo a percepção de esse “ver” poder ter apenas a configuração de um “olhar”.

Dizem que olhar é algo circunstancial, imediato, rápido, estritamente ligado ao sentido da visão mesmo. Já o ver teria maior profundidade, ligaria a imagem vista ao pensamento e ao sentimento. Também há quem afirme justamente o contrário.

Outras relações que surgem quando entramos nessa seara é a oposição entre “ver” e “enxergar”. e por aí vamos. “Entre o ver e o olhar: ecos e ressonâncias ecrãnicas” é, por exemplo, uma tese de doutorado em Ciência da Comunicação de Pedro Daniel Rodrigues da Costa, defendida em Portugal em 2013, que atesta o interesse que o tema desperta.

Segundo Costa, na página 42 de sua tese, “o ver é algo que compreende uma descodificação racional e linguística da visão; já o olhar é algo mais maciço, compreende as imagens-nuas, coisas que arrastam consigo pedaços de inconsciente (Gil, 1996: 21). O ver racionaliza as imagens vistas; o olhar apreende delas o invisível, as pequenas percepções imperceptíveis, coisas que nos invadem e que se instalam no inconsciente (Ibid.: 12)”.

Se caminharmos com Costa, perceberemos que tanto um como o outro verbo estão carregados de peso e de significações. Mas meu foco não está nessa oposição e nas possibilidades que dela derivam, e sim no termo que dá título a esta crônica. Então seguirei apurando o foco, deixando o olhar e o ver irmanados por meu propósito particular.

O poeta também português Carlos Queirós (1907-1949) bem disse em versos: “Ver só com os olhos/ é fácil e vão/ Por dentro das coisas/ é que as coisas são”. Pois bem: o ponto de vista é inicialmente construído como o aparato que, numa câmera, nos permite definir o enquadramento e o foco que se busca.

Feito esse enquadramento e ajustada a qualidade do foco, dirige-se o olhar para o ponto escolhido e exercita-se a ação de ver/olhar. Um ponto de vista só nascerá quando, após esse processo inicial, o que se olhou ou viu, em processo inverso, se inserir em nossa mente como uma válvula capaz de acionar nossos mecanismos cerebrais de reflexão e nossos canais sensíveis de percepção subjetiva.

Ponto de vista, portanto, não é um ponto sobre o qual se fixa o olhar ou a vista, mas o resultado de um olhar/ver que, após capturar o objeto pretendido, chegou à elaboração mental de algumas considerações sobre o que se olhou/viu. Esse processo invertido gera, dentro de nós, um outro ponto, uma marca simbólica que tem o desenho de nossos pensamentos, impressões e sentimentos sobre um determinado tema.

Quando dizemos “no meu ponto de vista...”, pressupõe-se que, alguma vez - ou algumas vezes - fixamos nosso olhar naquilo que se faz tema de debate e alcançamos uma compreensão própria e um fruto maduro desse mergulho que joga água para dentro de nós, irrigando nossa capacidade de pensar e também de sentir.

Ponto de vista, portanto, seria algo carregado de maturidade e responsabilidade, porque derivaria de uma relação especular em que o objeto contemplado ganha, em nós, uma materialidade própria ou peculiar, que nos permite assinar o que venhamos a dizer sobre esse objeto com a afirmação “No meu ponto de vista”.

Em vista disso, quando alguém diz “no meu ponto de vista”, esperam-se essa maturidade e essa responsabilidade. Contudo, ou mas, ou porém, ou entretanto, ou todavia, há inúmeros pontos de vista espalhados pelo mundo que nada têm de maduro ou responsável.

E por que isso acontece? Porque, infelizmente, estamos em tempos de opiniões vestidas de “pontos de vista” que não possuem qualquer consciência do processo de olhar/ver, penetrar no “dentro das coisas” e deixar que esse dentro também se presentifique em nós, demarcando um ponto de vista próprio, legítimo, delimitado por nossas circunstâncias somadas a diferentes emanações contextuais relacionadas a esse processo.

Pontos de vista esvaziados de sentido porque ilegitimamente produzidos andam trazendo muita confusão ao mundo. Ouvimos as maiores barbaridades, assinadas como “pontos de vista” que um exercício às vezes até simples de revolvê-las já demonstra que nem o ver nem o olhar foram verdadeiramente exercidos.

Copiam-se e se colam pontos de vista alheios sem a menor cerimônia. Depois faz-se uso desses pontos de vista como se fossem marcas autorais próprias. E se buscarmos a origem dos tais pontos de vista, muitas vezes sequer o objeto inicial é identificado. Vou materializar com exemplos palpáveis.

Há quem tenha pontos de vista sobre a pobreza sem jamais ter olhado profundamente para ela. Há quem expresse categoricamente pontos de vista sobre questões como a política de cotas, as categorias reunidas na sigla LGBTQIA+, a luta pela descriminalização do aborto, entre outros temas complexos, sem jamais ter olhado para elas. Adota-se o ponto de vista alheio, alardeia-se esse ponto de vista, mas não há qualquer capacidade argumentativa por trás desse ponto de vista fake.

Se pensarmos na história da humanidade, perceberemos facilmente que os pontos de vista históricos que explicam nossa caminhada por aqui partiram sempre dos mesmos olhos, das mesmas mentes e dos mesmos corações. E esses pontos de vista foram tomados pela própria humanidade como parâmetros suficientes e legítimos.

Porém, um dia, percebeu-se que esses pontos de vista tinham um vício na origem: entendiam os objetos observados como objetos mesmo, ainda que não o fossem. Seres humanos foram vistos como coisas. E coisas não têm dentro - a não ser no poema de Queirós, para quem coisas não são apenas objetos. Como não têm dentro, não precisam ocupar pensamento ou sentimento. Delibera-se sobre a elas única e exclusivamente a partir do eu que olha/vê fixado em seu privilégio de olhar/ver e poder dizer algo, que, no caso, vem vestido de verdade.

Um dia essas verdades se tornaram pontos de vista. No outro, revelaram sua contaminação. E agora estão em pleno processo de implosão, porque a Humanidade, quer aceite ou não, sabe que ou se entra em contato profundo, maduro e responsável com o dentro das coisas (que não são objetos, mas termos indefinidos e abrangentes que podem traduzir tudo) ou corremos o risco de extinção.

Os pontos de vista marcados pela opressão e pelo silenciamento de outros olhares e pontos de vista já não dão conta do mundo. E os falsos pontos de vista, copiados e colados de fontes desinformadas, irresponsáveis, fanáticas, artificiais ou tudo isso ao mesmo tempo, ampliam enormemente a desintegração do humano, se é que ele algum dia existiu de verdade.

Concluindo, se um dia chegarmos à convivência entre diferentes pontos de vista, por trás dos quais estejam a responsabilidade, a maturidade, o respeito à diversidade, o humanismo, o afeto e a seriedade, talvez seja possível acreditar em um sentido pleno para a palavra “vida”. Até lá, cuidado. Muito cuidado com o que se escuta, ouve, lê, olha, vê, porque estamos mergulhados no lodo da mentira.

 

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