Articulista
Rian Santos

É jornalista profissional. Escreve às quartas.

A falta que Ilma Fontes nos faz
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Ilma Fontes sobre tela de Cláudia Nên

Nesta terça-feira, 7 de abril, Dia do Jornalista, pus-me a pensar no status rebaixado da profissão. Na ausência, entre os nossos, de um profissional de grandeza incontestável, capaz de furar a bolha de uma popularidade estritamente doméstica, quase íntima.

Com a partida de Ilma Fontes, uma rara unanimidade local, foi-se a última personalidade notável da imprensa Serigy. Ao contrário de amigos mais sortudos, não convivi com Ilma Fontes.

Ainda agora, um desses sujeitos se gaba do cafezinho em companhia da bruxa, com o fim de me causar inveja. Tomado por despeito, faço ouvidos moucos, abro o jornal e leio um artigo qualquer, distraído, em voz alta. 

Bruxa, sim. Dessas que fazem mágica com as palavras, porque era poeta, além de médica. Ilma Fontes foi a última encarnação de uma rebeldia perfeitamente genuína, que eu mesmo nunca experimentei de verdade.

Fizesse música, esta soaria como os acordes de um Kurt Cobain mais esperto. Em lugar da heroína e da paranoia, o barato dos livros, um tantinho de cinismo, altos papos, um baseado, um cafezinho.

Certa vez, trombei com esta jornalista no meio da rua. Ela passeava com um cachorro enorme, muito gordo e manso, um labrador em desfile pelas calçadas do bairro São José. Ilma pediu desculpa, mas me reconhecia de algum lugar: 

- Você não seria filho de Dr. Fulano?

Não me atrevi a mencionar o prêmio “O Capital” de jornalismo que eu recebi de suas próprias mãos, anos antes, mas aproveitei a oportunidade para remediar o mal da timidez crônica e disse ali mesmo, olhos nos olhos, com todas as letras, tudo o que deveria ter falado de público, na tal cerimônia de premiação, em presença de Araripe Coutinho e Amaral Cavalcante.

A postura de Ilma Fontes sempre me serviu de inspiração. Depois apertei o passo e fui embora, com um saco de pão quente e uma alegria sem tamanho embaixo do braço. Ela certamente não entendeu nada.

Não, eu nunca fumei com Ilma Fontes. Também não vi “O beijo”, filmado em Super 8, reproduzido em breve passagem de um documentário formidável de Moema Pascoini.

Em compensação, fui leitor assíduo de O Capital por décadas a fio. Depois, com a publicação de seus poemas inéditos - os mais viscerais, ela mesmo me garantiu -, fui à forra com uns e outros.

Sempre haverá quem se queira muito amigo de gente talentosa. A cumplicidade exigida pela poesia, no entanto, dispensa todas as formalidades.

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