Articulista
Rian Santos

É jornalista profissional. Escreve às quartas.

Aracaju não há mais
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Chico Queiroga e seu fantástico Cor de Laranja: aqui Aracaju da criação existe

O leitor pense bem: Aracaju já não existe, realmente.

Sim, Cleomar Brandi cometeu crônicas ufanistas, a fim de esbanjar adjetivos e embolsar o prêmio oferecido pela Prefeitura Municipal, sob o pretexto de um dia 17 de março, como hoje. 

O poeta Amaral Cavalcante bebeu o lugar e estendeu o papo em memórias deliciosas, passadas a limpo sob o marulho da Atalaia, até o fim da vida. 

Em que pese a saudade sincera de amigos e leitores comovidos, no entanto, um e outro são página virada, já não erguem o copo vazio para o garçom.

Aracaju não há mais, acabou-se. Quem discorda talvez possa me fazer a caridade de apontar o refrão desconhecido, um sussurro, um gemido, a voz sufocada num bar da cidade. 

Aqui e agora, se a Naurêa sobe a palco improvável, a fim de, Bonfim, cantar de novo a alegria de ser sergipano, eu só escuto o eco do futuro extraviado na linha do tempo. Um passado feliz.

São Cristóvão, a cidade mãe de Sergipe, ainda tem Julico entre os seus filhos ilustres. 

Aracaju, hoje, é lembrada por quem?As paisagens urbanas de Tintiliano enchem os olhos em coleções particulares, um privilégio de gente bem nascida, com bala na agulha. 

Pedro Boeira, coitado, nem arranca dinheiro dos ricos, nem impressiona o povão.

Os bons já se foram ou vivem de lembranças douradas, tributários das conquistas mais justas, cobradas em forma de aplausos cada vez mais distantes. 

Fizeram e aconteceram, embalados pelo violão de Ismar Barreto, sacudidos pelo rebolado de Amorosa.

Paulo Lobo ainda teve a manha de botar um belo disco na praça, antes de se assumir como um velho reaça e solitário. 

Desde então, nunca mais surgiu um compositor com a manha de conciliar uma justa ambição criativa com a notoriedade de um artista popular de verdade.

Aracaju não é mais, verdade seja dita. Aracaju só foi uma cidade quando Chico Queiroga a imaginou Cor de Laranja e Cláudio Miguel buscou o cheiro da terra, mirando as ondas do mar. Saudosista, eu? 

 

 

 

 

 

 

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