Articulista
Rian Santos

É jornalista profissional. Escreve às quartas.

Cinquenta anos de solidão
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Alucinação: obra-prima que marcha para 50 anos em 2026. Mas precisamos todos rejuvenescer!

Um amigo cantou a pedra: “Alucinação”, 1976, está prestes a completar 50 anos. Um disco definitivo, capaz de atravessar décadas inteiras sem a necessidade de interpor uma única vírgula à sua compreensão.

Ainda mais agora. Com Belchior sumido para sempre e a estrela do Partido dos Trabalhadores praticamente apagada, os dias de hoje evocam uma rebordosa em tudo semelhante ao contexto de outrora, quando o ufanismo tropicalista foi ultrapassado pelo desencanto pintado de verde e amarelo. A nossa esperança de jovens também não aconteceu.

Embora Caetano e Gil ainda insistissem numa perspectiva colorida da experiência, dois hippies fora de lugar, às vésperas do surto das discotecas, os retirantes refugiados na cidade grande não tiveram chance de curtir a onda boa dos doces bárbaros - méritos artísticos à parte.

Entre o Brasil pandeiro aconselhado por João Gilberto e a ficção do Nordeste, a solidão de homens e mulheres, pessoas cinzas, normais.

Bob Dylan na forma, Lennon & McCartney no enunciado. Poucos compositores foram tão felizes na assimilação de um dado ambiente quanto o trovador do Ceará.

Mas o diálogo mantido com as principais forças sensíveis impulsionadas pela indústria cultural da época não abdicou nunca de um ponto de vista subjetivo, enterrado no próprio umbigo.

Conhecedor do próprio lugar, Belchior não permaneceu indiferente às palavras de ordem do seu tempo. Antes, defendeu um desespero genuíno, nenhuma relação com a moda de 1976.

“Alucinação” ainda fere. E não é para menos. Ancorado no intervalo entre a euforia antropofágica da música pop made in Brasil e alguma consciência latino-americana, o registro é prova de que a tecnologia não transformará nunca a essência de um povo.

Se, por um lado, a globalização derrubou as fronteiras determinando a localização e o fluxo dos bens de consumo culturais, por outra via os brasileiros eram ainda os mesmos aflitos de sempre, como os pais de nossos pais.

Corta para o horizonte acanhado da aldeia onde, vira e mexe, o nosso Heitor Mendonça se mete a desfiar as canções de Belchior. Trata-se de avivar a esperança, apesar de todos os pesares.

Contra todo o retrocesso, talvez a estrela partida do trabalhismo não esteja tão apagada assim. Heitor faz bem em olhar pra trás.

Sim, então que venham Heitor Mendonça e banda, no show Viva Belchior: sexta-feira, 5 de abril, no Café da Gente Sergipana.

 

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