
Nuvem negra: presságio de dia triste
Os leitores fiquem sabendo: se as previsões acabarem confirmadas, chuva grossa, raios e trovões vão desabar sobre Aracaju. Olho o céu e não creio. Desde já, no entanto, lamento a sombra projetada pelos colegas de Overland Amaral sobre a rotina do populacho.
Como todo sergipano legítimo, eu reclamo do calor todos os dias. Está escrito nos mapas. Ensinaram-nos, nas aulas de geografia: bonito mesmo é sentir frio.
Mal nos damos conta do preço cobrado pela elegância coberta de panos pesados, vestida dos pés à cabeça. Intuitivamente, imitamos os portugueses das caravelas, ainda estranhamos o índio.
Em cidade litorânea como Aracaju, onde o sol se derrama em luz escandalosa, somente a cor, a vibração, o movimento mais aberto e, talvez, o barulho afirmam o povo. A nossa única esperança de felicidade verdadeira está num dia límpido.
Na praia, por exemplo, quase sem roupa, o sergipano se reconcilia com a verdade nativa. Ninguém bebe cerveja ou água de coco fazendo pose de sabichão. Ninguém afeta a preocupação de noites perdidas, preocupações com o futuro da democracia, com uma raquete de frescobol às mãos.
À beira mar, mesmo o vendedor ambulante, o dia inteiro pra cima e pra baixo, sob o sol escaldante, sem refresco, acredita na chance remota de ser feliz.
Eu já enchi a boca de consoantes para pronunciar o nome de autores estrangeiros, os mais introspectivos e sisudos, paridos no frio. A juventude é insegura, tem horror aos espelhos.
Hoje, completamente careca, um bruto de pai e mãe, amante ideal do Carnaval, leio Jorge Amado e me farto, lambendo os beiços. Basta fazer bom tempo.
São Pedro há de nos poupar. Impossível aceitar convites e promover os encontros da boa convivência e da cultura sob um céu pintado de cinza.
Eu me recuso a imaginar um happy hour metido em trajes escuros, portanto. Sob adjetivo plúmbeo, viramos todos russos de espírito.














