Articulista
Mário Sérgio Félix

É radialista, jornalista e pesquisador da MPB. Escreve às quintas.

Ismar Barreto, eis um sujeito musical tremendamente poeta
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Ismar Barreto: quanta falta ele faz à realidade e à fala musical sergipana!

A gente para pra pensar o que poderia escrever sobre um artista que autodenominou-se “tremendamente sacana”. Poderia ser “tremendamente poeta”. Sim. Poeta. Assim era Ismar Barreto, esse aracajuano que amava sua cidade. Se tivesse alguém pra gostar mais do que ele, no máximo, empataria.

Ismar Barreto foi um artista na sua essência, o que sabia lidar com as palavras para fazer uma música, um poema. Talvez ele não se achasse poeta. Coisa de artista. Mas que era um baita de um poeta, isso lá era - não se incomodem os poetas ditos canônicos.

Ismar já nasceu sabendo da sua vocação para com as palavras. Suas músicas falam de um cotidiano que poderia deixar Chico Buarque de boca aberta. Um Vinícius de queixo caído. Não é exagero não: é fato. Senão vejamos.

Na sua música “Madrugada”, Ismar detalha minuciosamente as madrugadas de Aracaju. Tal e qual. Ao ouvir a poesia do cotidiano dessa linda canção, podemos passear por nossa capital, de forma simples e verdadeira. Venha aqui!

“A Ronda da madrugada é feita
Por putas, soldados, maridos,

Por gigolôs e garçons
Por dedos e línguas ferinas
Por pais infelizes e mãe cafetã...”

Quem conhece Aracaju, sabe a sua realidade e reconhece que na letra de Ismar esse cotidiano respinga bem na sociedade. Suas letras são uma verdadeira crônica que se encontra ou foca na denúncia social.

Aliás, o social é uma das vertentes de seu trabalho. Grande produtor de jingles, Ismar é compositor de vários trabalhos para o Ministério da Saúde, em defesa e alerta das doenças que assolavam esse país nas cidades que lutavam para diminuir a pobreza social.

É um lado que Sergipe precisa conhecer dele e lhe dar valor, para que não seja visto somente por ter escrito que “Papai Noel é Boiola” e aquele seu clássico “Porteiro de Cabaré”.

O disco “Tremendamente Sacana” é mais um trabalho que foge do lado cultural de um artista compromissado com essa cultura e o faz para mostrar a essa mesma sociedade o quanto ela é desprovida de sentimento.

Aceitar esse trabalho como sendo mais um ato sarcástico é ofuscar a poesia de um artista que sempre lutou e pautou a sua poesia com brilhantismo. Em “Sofrendo”, Ismar aflora a sua poesia e deixa fluir como chuva no molhado.

“Amor, não tô vivendo
Sou seca no sertão
Você é chuva, é vento
Eu sou a plantação”

Da mesma forma que a sua poesia enche o nosso coração de lirismo, a temática com a região Nordeste também se torna um tema que muito o incomodava.

Não à toa, Ismar se torna um grande defensor do nosso forró e dos nossos artistas, a ponto de fazer uma espécie de discurso em defesa da nossa música. Na verdade, foi mais um desabafo. Desabafo que se tornou em música, através da canção “Cadê Meu Forró”.

“Eu só queria saber
O Que fizeram d’ocê
Do velho e querido forró/xodó”

Ismar era um artista que compunha com os mais variados parceiros. Com João Alberto, compôs “Coco da Capsulana”, uma canção vencedora do Festival Canta Nordeste, promovido pela Rede Globo Nordeste no ano de 1993 e deu a Antonia Amorosa o destaque de melhor intérprete daquele festival.

Com João Mello, compôs “Velhas Serenatas”, que tem a poesia de Ismar, a melodia de João e a interpretação única de Edelson Pantera.

Com Lula Ribeiro, Ismar nos brindou com “Mercê de Você”. A poesia de Ismar é tão intensa que é capaz de coisas assim: “Pra te ter, me sinto um superstar,/ e me deito nesse olhar,/ pra ficar à mercê de você”.
Sem concessões, Ismar já pertence ao rol dos gênios da música brasileira. Sua música, sua poesia, sua picardia, o seu jeito de fazer poemas-sonoros com o lado social brasileiro, em especial o sergipano, tem autoridade para cobrar dos que fazem cultura um pouco mais de seriedade.

Em seu desabafo num show aqui em Aracaju, foi enfático com as autoridades políticas que insistem em trazer nomes de outros Estados para abrilhantar a cultura brasileira, não sabendo eles que temos aqui nomes tão competentes quanto os que aqui chegam. Ao final, solta o grito dos excluídos de nossa cultura: “O nosso povo não é besta”!

Sergipe precisa reconhecer esse artista que tanto defendeu a nossa cultura, aqui e lá fora, quando morou por muito tempo longe de seu torrão. Quando comentei que ninguém foi tão bairrista por sua cidade quanto Ismar, é que ninguém foi mesmo.

A belíssima canção “Viver Aracaju” é uma prova encarnada disso. “Tão longe de você,/ Entrar na Laranjeiras, subir o Calçadão,/ A Noite eu vou lá no Fans,/ Tomar um chopp com Paschoal,/ E papo vai, papo vem,/ fofocar não faz mal”.

É dessa saudade que sentimos quando estamos longe da nossa capital, e isso Ismar sentiu na pele. No coração, e talvez isso tenha feito dele aquele sujeito escrachado, às vezes solenemente incompreendido.

E com todo respeito a “Cheiro da Terra”, essa “Viver Aracaju” tem um cordão umbilical com a capital sergipana que jamais será cortado.

A convite do jornalista Jozailto Lima, mantenedor deste Portal JLPolítica & Negócio, estarei aqui todas as quintas-feiras falando de coisas por trás da nossa boa música do Brasil. Fui elevado a articulista! Não me deixe só e venha você comigo.

 

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Claudio
Todo filho da terrinha que tem apetite de banhar-se em mar de letras , é seduzido a traçar verdades vindas do íntimo, quando rearrumadas tem como frutos declarações de amor à terra. Aracaju terá sempre o jeito jovial de seduzir paixões. Amo Aracaju.
Augusto Barreto
Parabéns Mário. Só vc obrigado
Leonia Garcia
Gostei muito do artigo sobre Ismar Barreto. É muito bom conhecer melhor a terra em que se vive e sua gente. Ismar, embora seja excelente compositor, é desconhecido por muitos. Parabéns pelo seu texto!
Mário Costa
Parabéns, Mário Sérgio, pela belíssima e competente crônica enaltecendo o grande poeta Ismar Barreto. Ninguém conseguiria retratá-lo tão fidedignamente.
Rivaldo Sobral
Vou acompanhar com muita dedicação a toda história musical do nosso estado. E, é um expert.
Marlene Barreto
Que sensibilidade Mario Sérgio,poucos jornalistas tem esse olhar ,vc capta ele profundamente , incrível .parece que vc conhecia a alma dele.muito bom.parabens