Articulista
Luciano Correia

É jornalista, professor da UFS, ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e ex-presidente da Funcaju e Fundação Aperipê. Escreve às segundas.

O Anjo Claro que iluminou Clarinha pela vida inteira
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Clara Angélica Porto: uma amiga que se foi, mas que valeu pelo que aqui deixou!

Torquato Neto tinha seu anjo torto, aquele, muito louco, que não era um anjo barroco, era um anjo muito louco, torto mesmo, com asas de avião. Tivemos também os anjos maus, como o de uma novela de sucesso na Globo, Anjo Mau, em duas versões - a primeira delas a que consagrou a atriz Suzana Vieira. Anjo Claro foi o título de um certo show no começo dos anos 80, no Teatro Atheneu Sergipense, exibindo as canções, a voz e a performance de uma moça que era mais que cantora, jornalista, atriz, cronista.  

Foi assim que conheci Clara Angélica Porto, minha querida amiga Clarinha, de tantos encontros e conversas que já vararam a madrugada, até que os primeiros raios de sol apontassem no horizonte. Clara era assim: envolvente, dona de opiniões firmes, seguras, mas maleável, capaz de contornar os argumentos do seu interlocutor com uma doçura que, no fim, fazia dela uma vitoriosa nos seus argumentos. Cantava bem, num Inglês de quem casou com um estadunidense e lá viveu em diferentes períodos, com o melhor repertório da música do mundo, incluindo jazz e blues.  

Mas comigo nem sempre foi assim. Começamos essa relação de amigos, que depois só se fortaleceu nas décadas seguintes, com um pequeno perrengue. Pequeno ou grande, a depender da pele de qual sujeito nos dois lados da briga. Era eu ainda um imberbe e presunçoso estudante de Jornalismo da UFBA na Bahia, mas já fazendo parte daquela tempestade jornalística que incendiou a imprensa sergipana por muitos anos, a Folha da Praia, quando, com minha mania de comprar as brigas dos outros, acabei “comendo uma corda” do editor do semanário, o poeta Amaral Cavalcante.

Amaral era na época o presidente da então Fundesc, a Fundação Estadual de Cultura, órgão que executava a política cultural do Estado em paralelo com a Secretaria Estadual de Cultura. Para essa pasta, o então governador Antônio Carlos Valadares convidara o sergipano Joel Silveira.

Ele mesmo, A Víbora, considerado maior repórter da imprensa brasileira, voltando a Sergipe depois de décadas de sucesso no Sudeste, para uma função pública que o fastiava, o que era totalmente previsível, pelo perfil e personalidade do cáustico Joel.

Joel disse anos depois, já de retorno à sua Copacabana, que em Sergipe só tinha uma pessoa com quem conversar. Era o arcebispo Dom Luciano Cabral Duarte e o assunto das conversas era música clássica e literatura. 

Clara Angélica, artista e jornalista, trabalhando com Joel, logo tornou-se mais que uma assessora, uma musa para aquele boêmio romântico admirador da música e das mulheres. Pela diferença de idade, nutria por ela um carinho paternal, cercando-a de mimos e elogios.

Amaral, talvez movido por algum ciúme típico do ambiente das repartições públicas, meteu-se lá em alguma disputa ou divergência com Clarinha. Nem lembro mais o motivo, possivelmente um desses insignificantes assuntos tão presentes na modorrenta vida da burocracia pública. 

Ao ouvir na Redação da Folha as queixas do poeta editor, esse intempestivo e imprudente colaborador mandou ver uma daquelas corrosivas notas irônicas que não cumpria nenhuma função jornalística, senão a de dar combustível à intriga.

Joel Silveira, sendo Joel, não demorou. Logo em seguida me deparo com uma bomba-bilhete deste intrépido lagartense, em papel timbrado com a poderosa e temida grife do seu nome. A mensagem era curta e grossa: “Você ainda vai engolir esta merda”. Não sei se o destinatário da missiva era eu ou se seria Amaral Cavalcante. Nunca soube, e nunca mais tratamos do assunto. 

Joel e Amaral fizeram logo as pazes e, pelo visto, uma das cláusulas do armistício era me incluir da próxima farra, ocasião em que, posso dizer sem falsa modéstia, me transformei em amigo do grande jornalista. 

Meses depois eu assumi a Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná e a Folha da Praia organizou um concorrido bota-fora de 48 horas na lendária casa de Amaral na rua Luiz Chagas, na Atalaia, onde aportou gente graúda da política, prefeito e vice-governador da época, colegas do jornalismo, companheiros da militância de esquerda, incluindo o jovem Marcelo Déda, bandeira na mão, discursos e abraços.  

Joel Silveira apareceu de surpresa, com um presente delicado, uma fita K-7 com a música de Mozart e uma garrafa de uísque a tiracolo. Acho que não confiava muito no uísque servido na casa do poeta. Desconfio. Clarinha estava lá com sua sempiterna ternura, linda e fulgurante na cabeleira dourada - ela, a razão daquele não-acontecimento que produziu um encontro formidável meu com o monstro sagrado do jornalismo brasileiro. E sempre ríamos disso tudo. 

Já numa quadra mais recente, voltou para Nova Iorque, para ficar perto do casal de filhos e netos que vivem nos Estados Unidos desde que os pais se separaram. Eu curtia muito seus textos longos, ricos em detalhes, com análise da política internacional e da vida nos EUA e no Brasil.

Cheguei quase mesmo a ensaiar uma visita para rever Nova Iorque pela mão daquela guia privilegiada, de muitas histórias, como no dia em que seu filho bebê, Sasha, fez xixi no colo do grande poeta beatnik Allen Ginsberg num voo de Boston a Nova Iorque.  

Não houve tempo. Logo ela voltou para sua querida Aracaju, onde nos encontramos algumas vezes, prometendo novos encontros na esperança de que teríamos todo tempo do mundo para novas e outras conversas.

Mas, repetindo o velho clichê que todos falam nessa hora, não sabíamos da brevidade - por ora, a dela. Ainda alcancei-a no hospital, por telefone, cerca de um mês atrás, novamente prometendo visitas que minha rotina insana e algum descaso não permitiram que ocorresse. E assim perdi mais uma chance de ver Clarinha, certamente com uma tristeza amarga e profundamente existencial me perguntando: por que a vida é tão banal? 

Com sua partida, talvez o mesmo poeta Allen Ginsberg, com seus versos do poema “Canção”, respondesse à pergunta dela: “O peso do mundo/ é o amor.// Eu sempre quis/ voltar/ ao corpo/ em que nasci”. Pois que volte bem, minha querida amiga Clarinha.

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