
Avencas: tão frágeis e tão resistentes e reativas
Avencas, a palavra, chegou aos meus ouvidos na canção “Pelos Olhos”, de Caetano Veloso, lá do LP “Joia”.
“O Deus que mora na proximidade do haver avencas
Esse Deus das avencas
É a luz
Saindo pelos olhos
De minha amiguinha
Esse Deus dos fetos
Das plantas pequenas é a luz
Saindo pelos olhos
De minha amiguinha linda…”
Em um canteiro lateral, na entrada da casa de tia Carminha, em Ribeirópolis, havia avencas. Provavelmente foi lá onde as vi pela primeira vez. Afeiçoei-me à plantinha, como amiúde acontece com imagens trazidas em canções.
Foi quando amei uma mulher cuja mãe e mais alguns parentes moram em uma cidade no extremo sul da Bahia, já perto do Espírito Santo. Íamos sempre lá nos recessos de final e começo de ano.
No quintal da casa da mãe da mulher amada, naquele litoral distante, ao redor do tronco e sob a sombra de uma árvore, encontrei ramificações prolongadas de avencas.
Numa daquelas visitas, já fixadas em nosso calendário, a mãe da minha companheira presenteou-me com uma muda de avenca, plantada em caqueiro de barro.
Foram mais de mil quilômetros de estrada até Aracaju, com direito a pernoites. Em Itabuna, a plantinha subiu conosco ao quarto de hotel.
Ao todo, foram dois dias de viagem até Salvador, submetida às trepidações e solavancos ocasionais, envolta no frio do ar-condicionado do carro.
Após outra hospedagem - subir e descer em meus braços dois ou três andares de escada para alcançarmos nosso ninho no Rio Vermelho –, percorremos a pernada derradeira para Aracaju.
Aqui, enfim, chegamos. A avenca em seu caqueiro, ainda viva, embora visivelmente esmorecida. Entreguei-a aos cuidados de minha mãe e suas mãos miraculosas para plantas.
Pendurados em galho de frondosa mangueira, agora no quintal de dona Lúcia, os raminhos combalidos rejuvenesceram e rebrotaram viçosos.
Veio então a pandemia, e mamãe foi levada para uma temporada no interior. No quintal da casa da rua José Sotero, a passagem do verão ao inverno mudou o sol de posição. Os raios cálidos tocaram e ressecaram todas as folhinhas da avenca viajante – pareceu o seu fim.
Reposicionada de volta à sombra da mangueira e toda desfolhada, a plantinha, aos poucos, surpreendeu. Rebrotou de novo – desta vez, do zero.
De volta a Aracaju e decidida a mudar-se para a casa da filha, mamãe arriscou-se em delicada operação: dividiu a muda das avencas em duas, plantando-as em potes separados. Levou um consigo e presenteou-me com o outro.
Após a longa travessia desde o extremo sul da Bahia, passando por uma experiência de quase morte e separada ao meio, a descendência daquela ramificação original de avencas chegou ao meu apartamento.
Um amigo, dono de uma empresa de jardinagem, contou-me que as avencas são delicadíssimas e costumam fenecer em decorrência de qualquer coisa. Pegadas em jarros ou similares, uma simples mudança de lugar pode ser fatal.
Na minha casa, o meu pezinho de avencas faz Branquinha e Pérola Negra salivarem. As bichanas, que me adotaram há uns 15 anos, adoram mastigar suas folhas e já a deixaram, muitas vezes, estropiada.
Para escapar das dentadas felinas, hoje o meu pezinho de avencas vive trancado em meu quarto de dormir, onde adaptou-se aos dias abafados e ao ar seco das noites refrescadas pelo condicionador de ar.
Por tudo isso entre nós, minhas avencas tornaram-se metáfora viva de resiliência inspiradora. “O amor que tu me tinhas” quebrou-se faz anos. Já neste início de outono, três novos galhos desabrocharam na plantinha com viço incomum.
Ah, esse Deus que mora na proximidade do haver avencas é certamente quem faz havê-las!













