Articulista
Antonio Passos

É jornalista, professor e servidor aposentado da PRF. Graduado em História e mestre em Ciências da Religião pela UFS. Escreve às segundas.

A maconha em Sergipe desde Rodrigues Dória
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Maconha: duas referências sergipanas nada contributivas

Após mais de um século de controvérsias sobre os usos e a proibição da maconha no Brasil, significativas conquistas legais e jurídicas acabam de ocorrer em Sergipe, abrindo caminho para a utilização medicinal da planta.


Nesse fumacê centenário, além da resistência vivenciada no consumo ilegal, diferentes ramos do conhecimento viajaram pelo tema, alargando sua compreensão. Partidos políticos e movimentos sociais assumiram o debate público. Cada um desses atos figurando como contribuições até os recentes avanços.


Curiosamente, o primeiro discurso com rotulagem científica realizado no Brasil sobre a maconha foi elaborado em Sergipe. Trata-se de “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício - Memória apresentada ao Segundo Congresso Científico Pan-Americano, reunido em Washington, a 27 de dezembro de 1915”, escrito pelo médico Rodrigues Dória.


A partir de relatos colhidos entre trabalhadores envolvidos com o transporte feito em barcos pelo baixo São Francisco, no município de Propriá, Rodrigues Dória estabelece uma associação entre o uso da erva e práticas criminosas, descrevendo o consumo como vício e causa de loucura transitória ou mesmo definitiva.


Críticos afirmam haver muita divergência entre os relatos dos usuários e as conclusões de Dória. Atribuem tais discrepâncias a adesão do médico sergipano a um modelo de saúde pública que se impunha ao Brasil na época. A inspiração desse modelo tinha matriz na França, onde foram feitos estudos sobre o quadro patológico do viciado em ópio e que teria sido transferido por Dória para o consumidor de maconha.
Já em 1946, a partir de observações feitas em Aracaju, o também médico e sergipano Garcia Moreno publica “Aspectos do maconhismo em Sergipe”. Ainda mais que Rodrigues Dória, Moreno ressalta a associação entre o consumo de maconha e ações criminosas.


Entretanto, discordando daquele, afirma não ter encontrado qualquer evidência relacionando o uso da erva com a causa de distúrbios mentais. Porém, prefere atribuir o resultado dessa constatação a um suposto baixo poder tóxico da Cannabis sativa consumida em Sergipe.


Interessante notar que, independentemente das conclusões propostas, as duas publicações localizam o que poderia ser definido como pesquisa de campo em terras sergipanas. Com isso, resta registrado que mesmo com toda a controvérsia e a proibição legal, permaneceu corriqueiro o consumo da maconha em Sergipe.


Com o passar do tempo, as abordagens dos dois sergipanos passaram a ser duplamente confrontadas. Por um lado, uma superação decorre do avanço das próprias pesquisas médicas acerca dos efeitos da maconha sobre o organismo humano e, por outro, emerge a concorrência de discursos gestados no seio da sociologia e da antropologia sobre o mesmo tema.


A sociologia propõe um olhar para o consumo da maconha como mazela social e não mais como patologia individual, como enfatizava o discurso médico da primeira metade do século XX. As duas acepções, entretanto, apontam para a necessidade de cura, repressão ou, ao menos, ações sociais voltadas para o abandono do uso da erva.


Já na abordagem antropológica, o consumo da maconha deixa de ser percebido como patologia individual ou mazela social, recebendo um novo estatuto que ressalta a dimensão política dos consumidores e a legitimidade de uma opção pelo uso, inclusive recreativo.


Chegamos então aos anos 1980 quando todo esse incremento incorporado aos debates favoreceu uma publicização do assunto. O Partido Verde, então comandado pelo jornalista Fernando Gabeira, levantou de modo pioneiro e solitário a bandeira da legalização da maconha no Brasil. 


De lá pra cá, o PV abandonou a causa não havendo hoje praticamente nenhuma associação entre o tema e a sigla partidária. Os movimentos sociais continuaram na pista, chegando à promoção das atuais marchas.


Para encurtar a conversa, indico dois livros recentes sobre a questão aos que desejarem aprofundamento: “História da Maconha no Brasil”, de Jean Marcel Carvalho França e “Fumo de Negro: A Criminalização da Maconha no Pós-Abolição”, de Luísa Saad. Este último, inclusive, além de dedicar um capítulo a Rodrigues Dória, lista nas referências nada menos que 13 publicações assinadas pelo médico sergipano.
 

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Milton Filho
Ótimo texto!...