
Motos e mais motos para todos: neste turbilhão, ninguém tem sossego
Duas vezes por semana, tenho um compromisso antes das oito da manhã. Atravesso a cidade desde o Grageru até a região dos morros na zona norte.
Esses dias, no cruzamento entre as avenidas Pedro Calazans e Coelho e Campos, a turba de motos rangia e se avolumava diante do sinal vermelho, enquanto na outra via passaram, folgados, três ônibus do transporte coletivo urbano, quase vazios.
Como manter a sustentabilidade de um transporte público de qualidade se quase a totalidade dos potenciais usuários migrou para o guidom ou a garupa das motocicletas?
O transporte público, há muito, vem sendo enterrado pelo incentivo exacerbado ao uso de veículos de passeio. Agora, a tsunami de motos chega como a pá de cal que faltava.
A assombrosa quantidade de veículos de passeio e, ainda mais, de motocicletas, colapsando as ruas das cidades, provoca ainda outros péssimos efeitos colaterais.
Com o vai e vem frenético dos carros e das motos, o dia todo, levando gente pra cima e pra baixo, de um em um, é óbvio que pioram muito a emissão de gases nocivos e a poluição do ar e, por óbvio, a mobilidade urbana.
A barulheira excessiva é outra praga que, mais e mais, vai minando a qualidade de vida urbana. Nesse quesito, as motos extrapolam. Uma só, por vezes, parece fazer a zoada de mil.
A quantidade de acidentes de trânsito também explodiu. Pelo que se vê, é factível presumir que uma fatia expressiva dos usuários do Samu e da área de traumas dos hospitais públicos chega a esse caminho sobre duas rodas.
Cada nova motoca vendida, induz à compra de um novo capacete e diversos outros apetrechos. Se o comprador tem o objetivo de fazer transporte de aluguel, serão dois novos capacetes comprados.
Vender, vender, vender infinitamente e sem a menor responsabilidade social ou ambiental, essa é a lógica do sistema econômico. Quanto mais o consumo for individualizado, melhor.
E o que o sistema tem a ver com os efeitos deletérios da tsunami de motos e do consumismo de modo geral? Ah! Isso é assunto para o poder público. O Estado que se dane para resolver!
















