Articulista
Antonio Passos

É jornalista, professor e servidor aposentado da PRF. Graduado em História e mestre em Ciências da Religião pela UFS. Escreve às segundas.

Meu imaginário machista…
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Após um bom tempo e já em tom de impaciência, fui até o balcão e de lá falei alto: - Mulher, venha vender!

Não vou falar de nenhuma outra pessoa, mas de mim mesmo, do meu imaginário machista. Eu sempre assumi posição favorável à tolerância, respeito às diferenças, gentileza nas relações pessoais e contra discriminações opressivas.

Entretanto, faz poucos dias fui a uma loja de produtos para animais de estimação e lá chegando encontrei uma única vendedora conversando com outra mulher.

Enquanto isso, comecei a olhar as rações, as areias higiênicas, e nada da mulher vir me atender. Após um bom tempo e já em tom de impaciência, fui até o balcão - agora sem ninguém - e de lá falei alto em direção aos fundos da loja: - Mulher, venha vender! Não quer vender não?

A vendedora apareceu assustada, pedindo desculpas e alegando que estava ocupada atendendo a uma cliente que havia chegado antes - e  assim justificou a demora. Passou então a me atender e eu concluí a compra desejada.

Chegando em casa, enquanto colocava ração nova para as gatas, me veio um pensamento incômodo, pois percebi, sem nenhuma dúvida, que caso houvesse na loja um vendedor homem, adulto, muito dificilmente eu teria falado o que falei.

Isso porque de um homem meu imaginário conta com a possibilidade de uma reação grosseira ou até violenta, mas diante de uma mulher a expectativa é de subserviência.

Eu não concordo conscientemente com isso, porém são registros sedimentados no processo de formação cultural. Quando digo imaginário, poderia dizer inconsciente, Ou, como se fala muito nos dias de hoje, machismo estrutural.

Menos importam os nomes do que perceber se tratar de rasgos que vêm de camadas profundas, arraigadas e de difícil percepção por nós mesmos. Impulsos esses que muitas vezes contradizem aquilo que queremos conscientemente ser.

Escrevo aqui essa reflexão como um pedido de desculpas às muitas mulheres que já foram vítimas do machismo estrutural dissimulado em minhas atitudes nesses muitos anos já passados desde quando me tornei adulto. E ainda como uma contribuição para que outras pessoas possam aproveitar e fazer avaliações semelhantes.

Foto: Awebic

 

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