
Ariano Suassuna: certeiramente, mexendo com as raízes da nossa intolerância
“Não preciso dizer a todos que a situação do nosso País é gravíssima. O Comunismo, lobo disfarçado de ovelha, prepara seu assalto às instituições, e somente os cegos é que não viram, ainda, o perigo que nos cerca por todos os lados, ameaçando tirar Deus dos altares, a Pátria do convívio das nações e a Família de sua posição inabalável de centro da sociedade. O chefe escolhido e confesso desta agitação é aquele mesmo homem nefasto, já conhecido de todos nós que, em 1926, passou pelo Sertão da nossa pequenina e gloriosa Paraíba, ensanguentando o solo sagrado da nossa terra com o sangue dos mártires, dos Sacerdotes, das pessoas ordeiras e pacatas.” (Páginas 521-522).
“O fantasma vermelho do Comunismo ameaça-nos por todos os lados. Os cidadãos pacatos não podem mais trabalhar, porque os comunistas e revoltosos de toda natureza inventam, a toda hora, greves, picuinhas, agressões e atentados de todos os tipos, para perturbar o progresso e o trabalho produtivo e ordeiro”. (Página 523).
“A situação é grave, meus Senhores! Nosso País está dividido entre dois extremismos. A meu ver e salvo melhor juízo, um deles é mais perigoso, de modo que, apesar do conhecido equilíbrio das minhas posições, chego quase a dar razão aos que se ergueram na defesa de Deus, da Pátria e da Família.” (Página 524).
Nobres senhores e belas damas, os trechos acima, entre aspas, não são declarações de nenhum político contemporâneo nosso, de nenhum líder religioso agarrado à luta pelo controle do Estado secular, não é postagem audiovisual de nenhum(a) influenciador(a) de sucesso, em redes sociais. Não são sequer palavras nascidas no nosso século!
Os trechos transcritos entre aspas são recortes tirados de um discurso proferido pelo Comendador Basílio Monteiro, um dos personagens do livro “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, escrito por Ariano Suassuna.
Conforme a ambiência literária, o discurso do Comendador Basílio Monteiro foi proferido no ano de 1935. O livro de Ariano Suassuna, por sua vez, teve a primeira edição publicada no ano de 1971.
As transcrições acima foram retiradas da 13ª edição do “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, publicada pela Editora José Olympio, em 2012.
















