
Coentro sim, salsa não!
Há um restaurante sempre cheio na hora do almoço em Aracaju. A palavra “Vovó” está no nome da tão bem procurada casa de refeições.
Por ser divulgado como “da Vovó”, o estabelecimento inspira a esperança de que lá encontraremos uma comida autenticamente caseira, no melhor dos sentidos.
Se é “da Vovó” aqui em Aracaju, resta ainda sugerido que teremos no prato a culinária sergipana! Vários itens do cardápio afirmam essa identidade local.
Tenho flagrado, entretanto, a cozinha “da Vovó” usando amiúde salsa como tempero. Ora essa! Substituir coentro por salsa é uma das maiores afrontas às nossas tradições gastronômicas.
Esses dias, o intelectual Antônio Samarone escreveu sobre sergipanidade. Refletiu acerca dos ingredientes definidores da nossa particularidade. Tenho certeza de que o coentro não pode faltar na lista.
O coentro e a salsa se parecem, vistos a olho nu, mas os seus sabores: quanta diferença! Em Sergipe, o nosso paladar recebeu como herança culinária o sabor inconfundível do coentro.
Tudo indica que o coentro reina no Nordeste. Em um vídeo recente, para redes sociais, Caetano Veloso diz, com ênfase, que moqueca de peixe na Bahia é feita com coentro e não com salsa.
Quando morei no Rio de Janeiro, foi esse um dos poucos dissabores que enfrentei. Lá, desdenham ou desconhecem o coentro e tudo é na base da salsa.
De volta à terra natal, desfruto o reencontro com o sabor ancestral do coentro. Gosto da folhinha como tempero e também na salada. Coentro, é tudo de bom!
Sim, a salsa tem o seu sabor e seria um desperdício não degustá-la por pura birra. Até bairristas locais podem identificar harmonizações de sabores nas quais a salsa caia muito bem.
Contudo, ao ser atraído por uma sugestão de cozinha inspirada em avó sergipana, herdeira direta do encanto dos fogões de lenha, é de se perguntar com certo desalento: Vó, por que salsa?
Coentro: este sim, salsa não!
















