
Mulheres não precisam de concessões masculinas. Precisam que a era dos direitos as alcance com efetividade
O 8 de março não é apenas uma data no calendário, é, sobretudo, uma ferida cicatrizada pela história. Em 1911, as péssimas condições impostas às operárias da TriangleShirtwaist Company, em Nova Iorque, culminaram num incêndio que matou mais de 140 trabalhadoras, com as portas trancadas por fora.
Março entrou, assim, para a história como o mês da luta feminina que ganhou forma institucional em 1975, quando a ONU o oficializou como Dia Internacional da Mulher, celebrado hoje em mais de 100 países. Mas a data não nasceu em gabinetes e sim na concretude das ruas de Petrogrado, em 1917, quando operárias russas protestaram contra a fome e a guerra, foram reprimidas e, ao resistir, acenderam o estopim da Revolução Russa. A indignação feminina, quando coletiva, tem o poder de transformar a ordem do mundo.
Para compreender o presente, é preciso escavar o passado. O patriarcado não é uma estrutura natural: é uma construção histórica relativamente recente, que se consolidou com o surgimento da propriedade privada.
O que chamamos de tradição é, muitas vezes, apenas a sedimentação de relações de dominação que se tornaram invisíveis pela repetição. É nesse contexto que Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos, recupera o arquétipo da Mulher Selvagem: a psiquê instintiva, livre, que séculos de domesticação tentaram suprimir. As lobas não pedem permissão para existir. Elas existem.
Já Clarice Lispector escreveu que "o destino de uma mulher é ser mulher", sem dúvida uma frase de frase de ambiguidade fértil. Mas é Simone de Beauvoir quem oferece a chave mais poderosa: "Não se nasce mulher: torna-se."
Se a feminilidade é construção social e não essência biológica, então desconstruí-la é ato de liberdade. Judith Butler aprofundaria essa tese ao demonstrar que o gênero é uma performance, ou seja, um conjunto de atos repetidos que produzem a ilusão de uma identidade natural e estável. Compreender isso não é relativismo: é lucidez analítica.
Pierre Bourdieu, por sua vez, nomeou com precisão o mecanismo de perpetuação dessa ordem: a violência simbólica, uma espécie de coerção que opera não pela força bruta, mas pelo consentimento dos próprios dominados, que internalizam as categorias da dominação como se fossem inevitáveis.
No plano jurídico, o Brasil avançou. A Constituição de 1988 consagrou a igualdade entre homens e mulheres. A Lei Maria da Penha (2006), considerada pela ONU uma das melhores legislações de combate à violência doméstica do mundo, foi marco civilizatório. A Lei do Feminicídio (2015) qualificou o assassinato de mulheres pela condição de gênero como crime hediondo. Conquistas que merecem celebração, mas que não bastam em si.
O Brasil registra, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher assassinada a cada seis horas. Mulheres recebem, em média, 20% menos que homens em funções equivalentes. Ocupam menos de 20% das cadeiras no Congresso Nacional. A socióloga Joan Acker demonstrou que as instituições — tribunais, empresas, parlamentos — foram construídas por homens e para homens, carregando em seus critérios e culturas vieses de gênero invisíveis que perpetuam a desigualdade mesmo na ausência de discriminação formal explícita. Reformar o Direito é necessário, mas insuficiente: é preciso reformar as instituições que o aplicam.
Daí a advertência de Mary Beard: "Se queremos dar a todo o gênero feminino lugar nas estruturas de poder, precisamos pensar com mais afinco como e por que pensamos como pensamos." A questão não é apenas incluir mulheres nas estruturas existentes, é preciso questionar as próprias estruturas. E para quem ainda teme a palavra feminismo, Cheris Kramarae oferece a definição mais econômica e desconcertante: "O feminismo é a noção radical de que as mulheres são seres humanos." A radicalidade da afirmação reside no fato de que ela ainda precisa ser feita.
Mulheres não precisam de concessões masculinas. Precisam que a era dos direitos as alcance com efetividade. Se a sociedade capitalista opera sob o signo da concorrência, que se permita, ao menos, a disputa em igualdade de condições. Flores, bombons e jantares até são válidos na data. Mas mais significativo que mimos é o reconhecimento, por parte dos homens, de que a luta pela equidade não é causa alheia: é uma causa civilizatória. Aliança, aqui, não significa protagonismo, significa escutar, ceder espaços acumulados injustamente, questionar os próprios privilégios e, sobretudo, educar outros homens.
Djamila Ribeiro sintetiza a dimensão existencial de tudo isso com precisão cirúrgica: "Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la."
Então nada mais justo que essa luta seja também a nossa, não por culpa ou condescendência, mas por convicção de que nenhuma sociedade alcança sua plena humanidade enquanto metade de sua população vive sob o signo da opressão.
Então, lutemos juntos.













