
Uma turma velha que empunham novas guitarras como flores de rebeldia
Na noite do domingo, 2 de novembro, o estádio Mané Garrincha, em Brasília, fechou a turnê brasileira do Guns N’ Roses. Depois de públicos recordes — incluindo mais de 70 mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo — e do inédito show na Arena Pantanal, em Cuiabá, a banda encerrou sua passagem pelo país diante de milhares que foram buscar algo que o algoritmo não entrega: intensidade ao vivo. Mais uma vez, marquei presença para prestigiar esse lendário conjunto que embalou minha geração desde a adolescência — não por nostalgia, mas porque há algo de quase metafísico no fato de o Guns N’ Roses ainda existir — e ainda importar.
Num mundo que transformou a rebeldia em algoritmo, o protesto em discurso nutella e a contracultura em produto premium, Axl Rose, Slash e Duff McKagan seguem empunhando guitarras como espadas de uma velha guerra pela autenticidade. Desde que Appetite for Destruction (1987) rompeu o silêncio do establishment e escancarou o caos urbano com o grito selvagem de Welcome to the Jungle, o Guns encarnou a fúria, o hedonismo e o desencanto de uma geração que preferia queimar a viver morna. Sweet Child O’ Mine era o amor em forma de riff; Paradise City, o sonho impossível de um lugar melhor; Mr. Brownstone e It’s So Easy, o espelho do excesso e da autodestruição. Nenhuma banda soou tão perigosa — e tão real.
Em seguida veio G N’ R Lies (1988), álbum híbrido e provocador: metade registro acústico, metade manifesto urbano. Nele, o Guns revelou a tensão entre pistolas e rosas que o tornava fascinante: entre a balada confessional Patience e a polêmica One in a Million, a banda mostrou-se ao mesmo tempo vulnerável e insolente, poética e brutal. Era o retrato de uma juventude sem filtro, ainda alheia à censura moral que o novo século imporia.
Depois vieram os monumentais Use Your Illusion I e II (1991), que expressaram a megalomania de uma década em que a fúria deu lugar à grandiosidade sinfônica de November Rain e à melancolia existencial de Don’t Cry. Era o Guns em sua fase barroca, ambiciosa, trágica — o auge antes do colapso. Logo o caos se instalou: brigas, excessos, silêncios. O canto do cisne dessa era foi The Spaghetti Incident? (1993), disco de covers punk que soava como um gesto de insubmissão. Ao revisitar The Stooges, Misfits e Sex Pistols, o Guns devolveu à crítica um tapa estético, como se dissesse: “ainda somos, acima de tudo, uma banda de bar, não uma corporação do espetáculo”.
Depois disso, vieram o hiato e o labirinto. Axl seguiu só, obstinado, até lançar Chinese Democracy (2008), disco incompreendido que, com o tempo, revelou-se o grito de um artista que se recusava a virar caricatura de si mesmo. E quando ninguém mais acreditava numa reconciliação, o impossível aconteceu: Axl, Slash e Duff voltaram. Não por dinheiro — mas, parece, por destino. A banda não é mais a mesma, é verdade. Mas talvez justamente por isso sua sobrevivência soe tão simbólica: é o último rugido de um tempo em que o rock era insubmissão, não marketing.
A turnê atual, batizada com ironia — Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things Tour — soa como um diálogo entre o que o público deseja (reviver o passado) e o que a banda pode oferecer (a reinvenção possível). Há uma sabedoria nietzschiana nesse título: aceitar o trágico da diferença entre o querer e o ser. Ver o Guns hoje é encarar, sem maquiagem, o envelhecimento do mito. Axl Rose já não encanta como antes, seus agudos que impressionaram o mundo já não ecoam, mas o icônico vocalista — sexagenário — ainda urra como quem lembra que o silêncio é o pior dos conformismos.
O que emociona, nesta fase, não é a perfeição — é a persistência. O novo baterista, Isaac Carpenter, trouxe fôlego e azeitou uma engrenagem que poderia estar enferrujada. E o público brasileiro, como sempre, respondeu com devoção quase ritualística, como quem reencontra uma parte perdida de si. O recorde no Allianz Parque não é mero dado estatístico: é prova empírica de que o Guns N’ Roses ainda mobiliza algo mais profundo que entretenimento. É o reencontro com a rebeldia questionadora e com o desafio ao politicamente correto.
O rock, como ensinou Lester Bangs, nunca foi apenas som — é uma atitude ética e estética diante do mundo. É a recusa à apatia. É o “não” que move a história. E o Guns ainda encarna esse espírito, mesmo quando tropeça. Há algo de profundamente camusiano na obstinação de continuar tocando mesmo depois que o mito se descobriu humano. “No meio do inverno, descobri que havia em mim um verão invencível”, escreveu Camus — e é essa centelha de invencibilidade que pulsa em cada riff de Slash e em cada verso rouco de Axl.
Sim, há uma ironia histórica inevitável: o rock que nasceu para desafiar o sistema hoje é vendido em pacotes VIP com camarote open bar, como a caríssima “jungle experience”. Mas culpar o Guns por isso seria injusto. Eles são sobreviventes de uma era que o próprio sistema devorou — e se recusam a se gourmetizar. Sobreviver, no caso deles, é resistir. E resistir, para o Guns, é tocar. Slash, o homem do chapéu e da Les Paul flamejante, continua sendo a epifania do solo que desafia a gravidade. Duff, o punk de alma filosófica, ainda dita o pulso da banda com serenidade zen. E Axl, o último frontman de uma geração que acreditava que a arte podia mudar o mundo, segue gritando — não por vaidade, mas por predestinação. Antes gladiadores do excesso, hoje veteranos que tocam com a serenidade de quem sabe que o caos pode ser também uma forma de ordem.
Para quem ama o bom e velho rock’n’roll, assistir ao Guns N’ Roses em 2025 é como visitar uma catedral em ruínas: o teto pode ter rachaduras, mas o eco ainda é sagrado. Porque o rock nunca foi sobre juventude — foi sobre intensidade. E essa, felizmente, o tempo não destrói. Nesse particular, confesso que a intensidade me move com a força de um moinho.
Em uma era de playlists descartáveis e sucessos de quinze segundos, o Guns N’ Roses continua provando que a arte só é viva quando desobedece. Eles são, talvez, o último grito da rebeldia antes que o silêncio da conformidade se torne definitivo. E se o rock nasceu para incomodar, então ainda há esperança. E antes que eu esqueça — os incomodados que se mudem, literalmente.
Quando as luzes do Mané Garrincha se apagaram, não foi apenas o fim de uma turnê, mas mais um capítulo da teimosia mítica de uma banda que insiste em lembrar ao mundo que viver é, acima de tudo, não se render.













