
O riso é mais que festa: é instrumento democrático de crítica e liberdade.
A história brasileira — e sergipana — oferece uma resposta incômoda: toda forma de poder que não tolera o riso tem medo do carnaval, afinal, segundo Groucho Marx: “O riso é uma coisa séria”. Ele não é apenas uma manifestação do engraçado, é também ato político que sempre contou com lugar cativo no carnaval – essa celebração popular que, há séculos, se converte em laboratório democrático onde se testam os limites da liberdade e a disposição das autoridades de suportar a crítica.
O entrudo português do século XVII — molhadelas de água, farinha, ovos, limões-de-cheiro e outras coisas mais — parecia mera desordem e zombaria festiva. Em uma sociedade colonial escravocrata, porém, assumiu outro significado: por alguns dias, a hierarquia era invertida. A autoridade ridicularizada. O mundo virava de cabeça para baixo e o grotesco funcionava como válvula social. A ordem tolerava o riso para se preservar. Mas quem aprende a rir do poder aprende também a questioná-lo.
Contudo, essa lógica da inversão não nasceu no Brasil. Desde as festas medievais europeias, o chamado "mundo às avessas" permitia que o povo parodiasse reis e clérigos. O Brasil herdou essa tradição e a reinventou nas ruas — aqui, a inversão ganhou corpo, música e identidade própria.
Ao longo do século XIX, as elites tentaram “civilizar” a festa e baniram o entrudo, mas não eliminaram o carnaval — tentaram transformá-lo para maior controle. Importaram os bailes de máscaras europeus restritos a grandes salões frequentados pela elite. O povo então respondeu com criatividade. Surgiram cordões, ranchos, batuques e blocos que tomaram as ruas. O que era reprimido reorganizou-se. O que não cabia nos salões floresceu na cidade.
Em Sergipe, desde a década de 1890, blocos como Bacchos e Arrancas disputavam espaço em Aracaju, enquanto Estância consolidava a Guerra das Cabacinhas. O carnaval local não foi importação; foi afirmação cultural.
Nesse ambiente surgem duas figuras centrais que condensam o espírito da festa popular. Zé Pereira, o homem do tambor que convocava foliões ao amanhecer, representa a rua antes da autorização. Já o Rei Momo, inspirado no deus da sátira, encena a institucionalização da inversão: recebe simbolicamente as chaves da cidade e assume o comando da folia.
A entrega das chaves pelo prefeito é mais que folclore. É rito cívico. O poder reconhece que, ainda que por poucos dias, a cidade pertence à irreverência popular. Não é anarquia — é pedagogia democrática.
Mas a tolerância nunca foi espontânea. O Código Penal de 1890 criminalizou capoeira e ajuntamentos com batuques. A repressão alcançava também práticas religiosas de matriz africana. Terreiros foram perseguidos. Instrumentos sagrados apreendidos. O que hoje é patrimônio cultural já foi tratado como ameaça associada à desordem e à superstição, tornando-se caso de polícia.
Mas como sempre a resistência se faz presente e crescente. O samba, o maracatu e muitos ritmos que sustentam o carnaval nasceram desses espaços comunitários e espirituais. A festa foi sobrevivência cultural.
Em sua obra “Histórias de Presidentes”, a historiadora Isabel Lustosa demonstra que a sátira presidencial acompanha a República desde o Catete. Prudente de Moraes foi caricaturado como "Biriba". Hermes da Fonseca virou "Dudu" e "Urucubaca". Artur Bernardes tornou-se "Seu Mé" em marchinha popular. Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas — o "Gegê" — também foram convertidos em refrões e apelidos. O deboche não destruiu a República. Humanizou o poder.
Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a primeira marcha-rancho: “Ó Abre-Alas”. Mulher, maestrina e compositora num país patriarcal, ela transformou o carnaval também em espaço de afirmação feminina. A folia era música e presença pública.
No século XX, a repressão continuou com outras roupagens. No Estado Novo, blocos precisavam de autorização oficial; fantasias eram fiscalizadas, marchinhas vigiadas. Durante a ditadura militar, a censura atuou fortemente: letras foram mutiladas e enredos controlados, mas o poder político não conseguiu silenciar a criatividade popular. Alegorias passaram a dizer o que discursos não podiam. Quando a esfera pública formal era comprimida, o carnaval tornava-se tribuna alternativa sobrevivente não por benevolência, mas por força cultural do povo. Sempre que o Estado tentou suprimi-lo, enfrentou resistência. Sempre que tentou controlá-lo, precisou negociar.
O Nordeste não apenas resistiu — reinventou. Em 1950, Dodô e Osmar criaram o trio elétrico e transformaram a rua em palco móvel. Em Salvador, trabalhadores portuários criaram o bloco Filhos de Gandhy e converteram ancestralidade africana em afirmação pública. A cidade era ocupada pelo povo — não apenas para dançar, mas para existir.
A Constituição de 1988 rompeu o ciclo de ambiguidade e vedou a censura prévia à expressão artística. Não era garantia de festa; era consagração de princípio. A liberdade existe, sobretudo para proteger a crítica incômoda — inclusive quando veste fantasia.
No século XXI, os conflitos mudaram de forma, mas não de essência. Marchinhas continuaram a ironizar presidentes e personalidades. Bonecos caricaturam autoridades. Enredos denunciam desigualdades. E, como sempre, surgem vozes que pedem "limites" para a irreverência. É aí que a democracia se mede.
Contudo, quando o humor atinge grupos vulneráveis, o debate exige responsabilidade. Liberdade não é salvo-conduto para humilhação. Mas a resposta não pode ser censura prévia nem tutela moral do Estado. Toda vez que o poder decide o que pode ou não ser dito em nome da moral pública, a liberdade deixa de ser direito e passa a ser concessão.
Figuras públicas sim devem suportar escrutínio e sátira. Esse é o preço da vida republicana. Governos e autoridades não deveriam temer a força irônica e sarcástica do riso coletivo.
A pandemia produziu um silêncio ensurdecedor. Ruas vazias. Blocos suspensos. Tambores calados. Em Sergipe e no restante do país, percebemos que o carnaval não é distração: é ritual de pertencimento e expressão coletiva. Seu retorno foi reafirmação de vitalidade democrática.
Portanto, o carnaval é instituição político-cultural. Não é ameaça a ordem. Nele, o povo experimenta a inversão do poder. Zé Pereira convoca. Rei Momo assume as chaves. O cidadão torna-se protagonista.
Uma República que suporta o deboche confia em si mesma. Democracias frágeis temem o riso. Autoritarismos preferem silêncio reverente à crítica bem-humorada. Mas um povo que ri do poder não se curva facilmente.
Proteger o carnaval é proteger a liberdade de expressão. E defender a liberdade de expressão é proteger a própria República.
Enquanto houver blocos nas ruas, frevo nas ladeiras e samba nas avenidas, haverá alegria, riso e crítica aberta ao debate público de temas sociais e político. E onde houver manifestação livre, haverá democracia.
Porque o riso é o termômetro da liberdade. Quando ele ecoa nas ruas, a República está saudável. Quando ele é silenciado, a democracia adoece.
Que Sergipe e o Brasil jamais percam a coragem de rir — sobretudo de quem os governa.













