Articulista
Antônio da Cruz

É artista plástico e ativista sociocultural. Escreve às quartas.

Beto Pezão tem seu trabalho inscrito no Livro de Registro do Patrimônio Imaterial
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Saberes e fazeres do artesão Beto Pezão: bens intangíveis ou imateriais

Na próxima semana o senhor José Roberto Freitas aniversariará. Melhor dizendo: Beto Pezão comemorará o seu natalício. A ele, pois, feliz aniversário.

Foi o então povoado Carrapicho o berço deste artesão, que nasceu em 11 de dezembro de 1952. Seus trabalhos se espalharam pelo mundo, são muito bem característicos e identificados pela representação de figuras humanas com pés bem desproporcionalmente maiores. 

Localizada à margem direita do baixo São Francisco, norte de Sergipe, Santana do São Francisco é um polo de produção ceramista. Ali, o associativismo se evidenciou e desenvolveu a produção artesanal. A intensa atividade ceramista fez a cidade receber popular e simbolicamente o título de “A capital sergipana do artesanato”.

Foi nesse ambiente, conhecendo todas as etapas do processo de produção, que Beto Pezão cresceu e aprendeu com pais e avós as práticas na lide do barro. Ele chegou em Aracaju no ano de 1972, onde se estabeleceu e veio a se filiar à Associação dos Artesãos do Centro de Arte e Cultura J. Inácio - Sergipe Feito A Mão”.

Sobre a sua participação na entidade, Jean Santos Coutinho, vice-presidente, e Lícia Rocha Batista, presidente desta associação, numa carta de referência profissional, as palavras foram: “É gratificante constatar no quadro de sócios uma pessoa que faz diferença, sua honestidade admirável, pessoa segura do que quer e incrivelmente dedicado a fazer o melhor. Seu conhecimento e experiência como ceramista, agregada a suas habilidades chegaram a alcançar uma inteligência emocional evoluída”.

Em 2021 Beto Pezão requereu ao Conselho Estadual de Cultura o Registro no livro de Patrimônio Imaterial. Para quem se interessar pelo assunto, conforme a Lei Nº 28.977, de 24/08/2022, que trata do Patrimônio Imaterial em Sergipe, no seu artigo 3º, afirma que “As propostas de registro de bens culturais de natureza imaterial, acompanhadas de sua documentação técnica, devem ser dirigidas ao Conselho Estadual de Cultura – CEC, sendo partes legítimas para provocar a instauração do respectivo processo autoridades dos Poderes e Órgãos Constituídos da União, do Estado e dos Municípios, Membros do Conselho Estadual de Cultura, sociedades ou associações civis, ou qualquer cidadão”.

Ali, um conselheiro é designado para emitir o parecer, após avaliar a solicitação do requerente, para serem registrados seus saberes, modos de fazer, ou técnica desenvolvida e tipificação ou estilo dos seus objetos cerâmicos, associando ao seu nome artístico. São levados em conta “importantes referências identitárias, conforme a Lei de Patrimônio Imaterial, no seu Artigo 2º, Alínea III, afirmando que, no Livro de Registro de Formas de Expressão devem ser inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas, audiovisuais e lúdicas. 

Os tipos humanos concebidos por Beto Pezão, marcadamente, representam o sertanejo despojado da soberba do latifundiário e da riqueza material burguesa. Neles estão a força, a simplicidade e a resiliência. É vasto e diversificado o universo imaginário de Beto Pezão extraído do mundo real. Os aspectos sociais estão impregnados nas figuras. Sob o ponto de vista estilístico, o realismo social na obra de Beto Pezão só não se dá por inteiro porque suas formas humanas possuem características próprias. 

As expressões faciais marcadas pelas agruras, que poderiam decorrer da seca e da ausência de boas perspectivas na vida no ciclo de fartura que vai do período das chuvas de março a julho no litoral, ao de escassez delas por longo período que bem caracteriza o sertão, principalmente no Nordeste brasileiro. Até os santos europeus ganham feições marcadamente nordestinas. O sertão exige do seu habitante a capacidade de resistir e se recobrar do tempo ruim nos raros momentos de bonança.

O artista tem como persona, que sintetiza os tipos da sua galeria, Zé Pitoca, que em geral é representado por um jovem e reúne todo o simbolismo contido nas suas figuras humanas. Zé Pitoca dentre as suas representações ora é pançudo com proporções físicas que sugerem estatura pequena; ora criança sertaneja com chapéu e segurando com uma das mãos um saco onde estariam seus pertences ou completamente de mãos vazias e nu.

Da similaridade de muitas expressões, fica a pista de que, do biótipo do Zé Pitoca se derivam todas as personagens. Evidentemente o Zé Pitoca é um típico Pezão.

Desfilam na sua galeria o cangaceiro e seu arsenal, cuja variedade dentro do espectro  humano regional é percebida nas faces dos componentes dos bandos; o retirante que foge da seca com um saco às costas, que substitui a maleta e o “cadeado é um nó”; o roceiro e seus instrumentos de trabalho; a mulher que vai ao campo e vem com feixe de lenha e que também pode ser um patuá, sinônimo de cesto de cipó, na cabeça rumo à feira; a oleira e seus artefatos de barro; a mãe e seu filho numa alegoria maternal sacralizada; o caçador; o pescador; o beato a pregar sermões e conduzir seu rebanho; a freira na sua peleja com a caridade; a devota segurando o retrato do seu santo milagreiro; e, claro, a família, “célula mater da sociedade”.

O que resulta do trabalho de Beto Pezão é a certeza de que, no conjunto, elementos da cultura sergipana estão nele representados. A religiosidade, a tipificação dos componentes, sejam objetos e pessoas isolados, os conjuntos de elementos, os cenários e as situações sugeridas pelas figuras humanas e seus acessórios, que levam o observador a se convencer de que está diante do trabalho de um artista com raízes profundas no seu universo e nos seus fazeres artísticos.

Sob o ponto de vista do seu modo de fazer e do domínio completo das técnicas do trabalho com barro ele detém o conhecimento ancestral, tendo sido seu pai, João Freitas, um ceramista bastante popular que o iniciou, quando bem criança, com cerca de seis anos de idade.  Beto também fez adequações desenvolvendo recursos próprios dentro do método tradicional de trabalhar o barro. Do volume de conhecimento e do senso prático brotou da mente e das mãos de Beto a figura do “Pezão”.

“O Pezão” é uma obra icônica. Ninguém a dissocia do seu autor. Ainda que outro artesão o siga, uma cópia “genérica” é identificada pelo olhar de quem o admira e conhece sua obra. Não apenas o seu estilo é inconfundível, mas a qualidade do seu trabalho é irrepreensível. Ter um Pezão pode significar para os colecionadores a qualificação das suas coleções.

O “Pezão” surgiu da necessidade de vencer, mecanicamente, a inclinação natural, por força da lei da gravidade, das figuras enquanto o barro não secava. Para o artesão, deixá-las de pé nas proporções normais pretendidas se tornara um incômodo. O insight ou ideia súbita do artista fora prodigiosa, pois a estruturação do objeto seguiu a lógica de engenharia, fácil de compreender, pois massa expandida e adensada na base aumenta a resistência de uma estrutura, tal e qual o alicerce de uma casa.

Os saberes e fazeres do artesão Beto Pezão se enquadram como bens intangíveis ou imateriais, e se constituem “per si” marca, ou seja, seu nome, perceptivelmente icônico, associa-se a um conjunto de elementos identitários. Seus saberes e fazeres, enfaticamente, garantem, sob o ponto de vista da legislação, o Registro no Livro das Formas de Expressão e recebeu dos conselheiros todos os votos favoráveis.

 

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Genilson Ramos de
Reconhecimento justo a um dos cidadãos santanenses que com muitos dedicam sua vida a arte de modelar o barro. Santana do São Francisco é oficialmente a capital sergipana do artesanato em barro.