Articulista
Alê Cavalcanti

É jornalista, cronista e poeta, autora do livro "Letras Jardineiras". Escreve às sextas.

Ao carteiro, com afeto
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Cartas com recados ao carteiro: algo bom e avivador

Foi só um recado no canto de um envelope e, ainda assim, chegou exatamente onde precisava. Enviei um dos meus livros para uma amiga querida, em Aracaju, e dias depois, ao confirmar o recebimento, ela me contou algo que me marcou de um jeito inesperado.

O carteiro tinha lido o recado. Disse que ficou feliz - “até emocionado”, segundo ela - e que a mensagem tinha chegado em boa hora, justamente num dia difícil. Fiquei em silêncio por alguns segundos, porque há coisas que não cabem numa reação imediata. Elas pedem pausa, pedem entendimento, pedem que a gente sinta o que, de fato, acabou de acontecer.

Eu não conheço esse homem. Não sei o nome dele, não sei sua história, não sei o que ele estava vivendo naquele dia. Mas, de alguma forma, uma frase simples, escrita quase sem pretensão, encontrou um lugar exato dentro dele. E isso me fez voltar no tempo.

Desde adolescente, eu tenho um hábito que nunca abandonei: o de escrever cartas. E, junto com ele, herdei outro - do meu tio Alberto - que era o de deixar, no canto superior direito do envelope, um pequeno recado para quem, no fim das contas, faria a carta chegar. O carteiro. “Carteiro, Jesus te ama!”, ele escrevia. Era simples, quase despretensioso, mas ficou em mim.

Desde então, passei a repetir esse gesto. Às vezes sem pensar muito, igual a quem cumpre um pequeno ritual de afeto anônimo. Um gesto que não esperava resposta, não exigia retorno, não pretendia nada além de existir.

Até que, depois de tantos anos, ele voltou, não como hábito, mas como resposta. E isso me fez pensar no quanto a gente subestima o alcance das pequenas coisas. Acredita que só os grandes gestos transformam, que só o extraordinário marca, que só o planejado tem valor.

Mas não é verdade. Às vezes, o que salva o dia de alguém é algo mínimo. Uma palavra. Um cuidado. Um gesto que não custou quase nada, mas chegou na hora certa. Há uma beleza silenciosa nisso. Uma beleza que não faz alarde, que não pede reconhecimento, que não aparece em lugar nenhum, mas acontece.

E acontece o tempo todo, sem que a gente perceba. Quantas vezes cruzamos a vida dos outros sem saber? Quantas vezes deixamos pequenas marcas, boas ou ruins, sem sequer nos darmos conta? E, no meio disso tudo, quantas oportunidades temos de escolher ser leve, ser gentil, ser presença boa na travessia de alguém?

Aquele recado nunca foi sobre mim. Nunca foi sobre quem enviava a carta. Era sobre quem, no meio do caminho, faria com que ela chegasse. E, talvez, seja isso o que mais me toca. Porque, no fim das contas, a vida é uma sucessão de encontros indiretos, de intersecções invisíveis, de gestos que parecem pequenos, mas não são.

Hoje, eu continuo escrevendo cartas. E continuo deixando recados. Talvez agora com um pouco mais de consciência, mas com a mesma intenção de sempre. Porque, se uma frase pode alcançar alguém num dia difícil, então ela já fez mais do que o suficiente. E talvez seja isso o que realmente importa: não saber exatamente onde vamos chegar, mas ter certeza de que, no caminho, deixamos algo bom.

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