
O teiú não era tão grande como o das lendas. Parecia jovem ainda, com muita vida pela frente. Muita vida
- Você pega um fio de nylon, número cem, põe um anzol robusto mordendo um pedaço de frango. Ele mesmo se fisga. Depois é só cair de pau no danado.
Era certo que ele estava lá, atrás do pé de noni, bem pertinho da granja, doido pra roubar às galinhas seus ovos. Enorme. Dizem que o rabo é um chicote, de tal modo que o bicho se faz perigoso em ambas as extremidades, considerando também a violência de sua mordida.
De longe, mistura-se àquela confusão de relva, folhas secas e frutos podres meio comidos. Seu dorso tem um jeito de barro velho, ressequido, riscado por anéis imperfeitos, como voltas que a noite lhe dá, todo salpicado de cal.
Súbito, o fio esticou, o mato sacudiu-se inteiro, que ficou parecendo água quando uma pedra mergulha, perturbando a superfície. Não mais podia se esconder.
- Hoje você vai pra panela, filho da puta.
De fato, já tinha rebolado água na caçarola a fim de tirar a sujeira suposta de dentro. Separara também uns tomates bonitos, mais cebola, pimentão, coentro, cebolinha, alho e sal. O cozido de teiú ia dar pra janta.
Por isso aquela carreira toda. O pedaço de pau foi com tanto gosto pra cima do coitado que parecia malhação de Judas em Sábado de Aleluia. A primeira lapada pegou na cabeça, mais ou menos de raspão, o suficiente pra fazer o lagarto desistir da vida: paralisou.
Na verdade, tudo paralisou. De pé sobre ele, o homem viu a própria sombra debruçada no corpo do animal, cobrindo-o quase inteiro. Só a cabeça do teiú ficava de fora, batida pelo sol quente, e o resto como já se entregando à escuridão.
A impressão que deu foi a de que os olhares se cruzaram e, numa espécie de milagre, se irmanaram por um instante. O teiú não era tão grande como o das lendas. Parecia jovem ainda, com muita vida pela frente. Muita vida.
Não há como sabermos, não há, mas é possível que o homem tenha experimentado um outro milagre, pelo qual vislumbrou eras inteiras num único segundo.
Havia poucos dias que estava de volta à sua terra natal, longe da cidade e portanto longe da peçonha de uma língua que, outrora, lhe oferecera doçuras.
Recaía sobre ele uma acusação grave. Entre horizontes verdejantes e o cheiro de café da lata de alumínio na cozinha de sua mãe, nosso caçador temia ser alcançado pelos cassetetes da Lei Maria da Penha. Jura que jamais pôs um dedo na mulher como punha agora neste lagarto que, de repente, lhe parou o mundo.
O teiú, segundo a sabedoria popular, não chega a ser imune aos venenos, mas também não foge à peleja contra serpentes. Quando mata, ainda come. Se é mordido, foge pro meio do matagal em busca da batata de purga, com a qual se livra da ruindade e volta pra arrematar sua adversária.
É estranho que todas essas coisas tenham cabido num mero segundo. Aliás, em meio segundo. Entretanto, não há, entre as razões, outra que explique o sucedido. O homem levou a ripa ao pescoço do lagarto e fez bastante força.
O pobre começou a se debater violentamente, distribuindo chicotadas às cegas. Depois de uma dezena de pisadas em falso, conseguiu domar-lhe o látego.
E, no entanto, não prosseguiu com o espancamento. Sentiu debaixo da ripa a vida do lagarto resistindo, e já não sabia se o golpe seguinte seria contra o bicho ou contra a própria sombra.
Naquele instante, o homem avançou num bote, agarrando o réptil com a mão direita, que ia envolta por uma luva de couro bovino. Resolveu levá-lo vivo pra dentro de casa. Levou, mesmo. Ninguém viu.
- Cadê o cozido?
- Está no meu quarto.
- Vai comer só, é?
- Não. Está vivinho da silva, lá.
- Oxente!
Passaram-se duas semanas. Moisés estava mais gordo, parecia mais comprido. Aliás, perdoem-me: já ia me esquecendo de dizer que Moisés é o teiú.
Não se sabe por que o homem lhe deu esse nome. Talvez por graça, talvez porque o bicho, terroso e ancestral, lhe parecesse sujeito a uma lei bem mais velha que a sua. O fato é que agora tinha nome, cercado, comida à vontade, e até coleira para os passeios.
Os dias correram ligeiro apenas aqui, nesta narrativa apressada. No calendário do homem e do bicho foram quatorze eternidades. A ligação do advogado podia acontecer a qualquer momento.
Convém dizer: o advogado era do homem. Moisés não assinara nenhuma procuração nem tinha aprendido, ainda, a bulir num smartphone. Ademais, fora preso antes de qualquer flagrante.
Certo dia, o sol mal tinha dado as caras, a porta da frente estrondou. Só dentro do homem anoiteceu. O sopro gelado das madrugadas corria o corpo inteiro. Era a polícia. Sem dúvidas, a polícia. Bateram novamente.
Viu Moisés impávido colosso na caixa de papelão. “A polícia vai maltratá-lo”. Vestiu camisa e a luva de raspa. Tomou o bicho, às pressas, e correu para o fundo da casa, onde tinha um tanque velho.
O teiú caiu sobre a lâmina d’água num baque mole e a cortou pelo meio. Por um segundo, o tanque pareceu abrir-se para lhe dar passagem. Em seguida, ganhou a beira, riscou o barro e sumiu-se no meio do mundo.
O homem pensou em ir. Uma lágrima breve lhe ocorreu nos olhos, não se sabe por quê. Pularia a cerca, tomaria o descampado, iria no rastro do profeta, inocente e livre. Mais uma vez, a madeira sofria com as pancadas, lá no alpendre. Decidiu encarar o destino e se dirigiu à sala.
Virou a chave já de cabeça baixa, servilmente, para evitar esculacho na frente da mãe, idosa. Por isso, viu primeiro as botas. Depois as pernas nuas, que traziam salientes um restinho de sol nos pêlos aloirados, como se a manhã se estendesse na pele brônzea, onde um dragão enorme se enrodilhava. Ao lado, uma mala.
- Surpreso, bem? Precisamos conversar.
Um arrepio correu pelo homem, deixando seu corpo cheio de escamas, igualzinho ao de um lagarto.
Pensou em Moisés. Ele não voltará.


















