
No Brasil só quem pode é o dinheiro e a natureza: nunca a humanidade realizada
Na semana passada eu reclamava da falta de poesia que assola o Brasil. Não contei, na ocasião, que tudo começou quando encontrei, na selva da rotina, uma espécie rara, já quase extinta.
Outrora cobiçada a ponto de fazer marginais atentarem contra a vida de seus compatriotas, de pôr irmãos contra irmãos, pais contra filhos e filhos contra pais, hoje ela já não é tão necessária.
Diante daquela nota de R$ 100, minha principal preocupação era encontrar alguém que a aceitasse em troca de um Pix. Seu valor como objeto certamente mudou.
Mas a cédula ainda carrega - ou deveria carregar - algo cujo valor é perene e incomensurável: o símbolo.
Passando de mão em mão, não há brasileiro que já não tenha enchido os olhos d’água, como aquário para acomodar a garoupa estampada no azul claro.
Quantos corações já não se encheram de relva fresca para que desfilasse, imponente, a onça-pintada? Quantos micos já não fizeram graça em nossas ramarias?
Mas o Banco Central afirma que a escolha de estampar as cédulas com animais se vincula à ideia de preservação da fauna brasileira. A causa é nobre, sem dúvida.
Será que o Brasil já não consegue enxergar nem promover nada que vá além da matéria? Estaremos fadados a pendular entre a ânsia exploratória e a necessidade de salvar aquilo mesmo que exaurimos?
Só podia ser o país dos viciados em “tigrinho”. Aqui promove-se a bichalização do homem, que olha para a pedra e vê, em todas as vezes, apenas pedra.
Olhamos para a onça-pintada e não somos capazes de entrever, por meio de seu símbolo, qualquer virtude humana.
Enxergamos tão somente, de baixo, o bicho que nos pode estraçalhar em dois minutos, com garras e presas amedrontadoras. E, de cima, enxergamos o bichinho que está prestes a sumir do mapa, com essa pose sentimental de quem se entristece diante das câmeras com a exploração da natureza, mas não deixa de participar, com zelo e conforto, do sistema exploratório que lhe dá regalias como nenhuma geração humana jamais conheceu.
Nunca a vemos como coparticipante de um ato criador que, de algum modo, nos irmana e nos permite perscrutar a voz inaugural que deu a tudo um lugar e uma intenção, como um caso de poesia.
Aliás, quem hoje crê que o mundo, apesar de tantos sinais, seja poético, que tenha um poeta por detrás? Ainda assim, é a poesia que continua a nos explicar.
Graça Aranha reduziu a símbolo esta nossa loucura. No romance Canaã, a pobre Maria vê o filho morrer, comido pelos porcos, nessa vitória da natureza bruta sobre a criatura humana, para depois receber, como selo final da desgraça, a pecha de vilã assassina, correndo com um estrangeiro atrás de um ideal que não existe.
Enquanto isso, nossos santos e heróis, nossos monumentos nacionais, nossos grandes feitos do espírito, quando não estão completamente esquecidos, vão sendo vilipendiados por uma historiografia cuja ambição mais constante parece ser a de provar, a qualquer custo, que não, não havia ali grandeza nenhuma.
No Brasil só quem pode é o dinheiro e a natureza. O espírito humano, não: este ou é imponente ou vilão. Vai dizer que não é assim em quase todas as esferas?
O que nos resta é encarar, no outro lado da cédula, uma não-pessoa: uma efígie abstrata. A República brasileira, incapaz de propor à alma popular um ideal humano de nobreza, nos oferece uma imagem inumana, que até parece gente, mas não é.
O jeito é admirar o sistema que deixou e ainda deixa desumanamente rica uma classe de gente pérfida, a qual, em termos de virtude, jamais alcançará a grandeza daquela elite corajosa que, em torno de uma mulher decidida e corajosa, levou o país à celebração da liberdade e da igualdade, virtudes que jamais encontraremos num mico-leão-dourado ou numa cabeça de pedra.
Assim, temos um pedaço de papel, um pedaço de natureza e um pedaço de projeto social. Nunca a humanidade realizada. E vai o Brasil tateando pelo chão da história, completamente sem rumo.



















