
Emmanuel Santiago: morte precoce aos 42 anos e a deixada de uma poesia certeira
Não se perde um grande poeta, é verdade. Sua arte não morre. Mas se perde, sem dúvida, se perde um amigo, um colega, um irmão, um filho, um professor.
Na última quinta-feira, 23 de abril de 2026, perdemos Emmanuel Santiago. No dia da celebração do aniversário de William Shakespeare, de quem foi tradutor.
Não espantaria a ninguém se descobríssemos que esse escritor mineiro tenha recebido um convite de honra para a festa do bardo inglês. Vere dignum et iustum est.
No entanto, estamos agora sem ele. Eu mesmo perdi um mestre. E arrependo-me fundo de não lhe ter feito saber em vida o quanto me ensinou. Fui mais próximo de sua poesia e de seus ensinamentos do que de sua pessoa.
De minha parte, ficam as orações e essa singela homenagem a quem tanto devo - e devemos. Sei que, apesar de sua arte sobreviver, Emmanuel fará muita falta.
Enquanto isso, podemos nos abraçar ao que nos deixa: sua poesia, porque, apesar de tudo o que disse, creio também que, “not marble, nor the gilded monuments / of princes, shall outlive this powerful rhyme” (Shakespeare, Sonnet LV).
Não, não. Depois de Emmanuel, na verdade, creio que “nem o mármor, tampouco dos reis os dourados / monumentos, verão sucumbir estas rimas” - é que posso, por sua culpa, citar o velho William, com a mesma força, na língua-mãe - deixarei as duas versões inteiras lá embaixo.
Assim, não é justo dizer que não ficará conosco. Emmanuel Santiago era poeta e o poeta não fica apenas nos olhos. Desçamos um pouco no mesmo soneto de Shakespeare, até o dístico final, para descobrir que nosso tradutor deslocou a pessoa amada dos “lover’s eyes” para a “voz dos amantes”. É onde Emmanuel viverá, também.
Com esta breve crônica-homenagem, não pretendo me estender em crítica literária ou prosa poética. Como disse, não fui tão próximo a ele. E há muita gente, inclusive poetas bem melhores que eu, regando com lágrimas amigas o chão sagrado em que seu corpo aguarda a ressurreição.
Quero que este texto dê um pouco mais de azul às suas asas ritmadas, num tempo em que nuvens negras se estendem sobre a poesia. Por isso quis reunir, como uma breve antologia, alguns versos que apareceram em minhas redes sociais nos quais essas lágrimas amigas tomaram corpo de palavras, inspiradas por sua vida, de que é parte a poesia.
Antes das elegias, deixo ainda dois caminhos para quem quiser permanecer um pouco mais junto de Emmanuel: a homenagem do Matheus de Souza, crítico e poeta, que acabou tomando forma, como era de esperar, de uma verdadeira aula (https://formasfixas.substack.com?utm_source=navbar&utm_medium=web_; e a bela honraria publicada por Francisco Botelho, com inéditos do autor: https://especiaria.art.br/inditos-de-emmanuel-santiago-2/ .
Vamos às elegias. No fim, alguns poemas do próprio Emmanuel acompanhados de uma brevíssima biografia para quem quiser conhecê-lo um pouco mais, que vale a pena.
ELEGIA PARA EMMANUEL SANTIAGO, de João Filho
Aquela noite em São Paulo
as desaparições rondavam longe,
parecíamos inatingíveis
enquanto você pedia um quindim
e comentava com rara gentileza
(a gentileza dos que muito sofreram)
sobre a origem da poesia
(escrevo isto e tremo sem entender direito).
Saímos depois pela noite,
ríamos das nossas discordâncias
e silenciávamos em comunhão
nossas admirações.
Eu poderia, de modo canhestro,
preencher versos com outros encontros nossos
em outros lugares,
mas escrevo isto para disfarçar
certo choro desesperado
de quem sabe que a ausência
é um peso sem solução.
***
PÁSSARO MANÚ, de Mariana Machado
Dizem que foste voando,
dizem que foste a Edo.
Assobiaste em frente à cabana de Bashô,
desatando dos pés as sandálias de relva…
e os dois foram vistos das janelas:
recém-nascidos e andarilhos.
Agora aos sábados,
ministras um novo curso aos anjos,
é lá que giras em torno do barro
– nas mãos, o orvalho de 40 anos –,
vais demonstrando
a proporção,
a melhor forma de moldar
a luz
e o sopro
na argila branca das palavras.
***
MÍNIMA ELEGIA, de Wagner Schadeck
Por que a pressa? Há um outro jeito,
Irmão? É cedo. Ora lavras
Com novo arado um novo eito?
Nossas as tuas palavras!
***
[Vate de raros pássaros bizarros], de Leonardo Antunes.
Vate de raros pássaros bizarros,
de ninfas e demônios abissais,
de sonetos, sextinas e haicais,
de néctar, ambrosia, sangue e escarro,
partiste, caro amigo! A que me agarro
para sustar a dor de tantos ais –
por ti, por nós, por tudo que jamais
farás agora, retornando ao barro?
Ó mestre do Parnaso brasileiro,
amigo de Allan Poe e Baudelaire,
tradutor do afamado bardo inglês,
maldito seja o deus que não te quer
vivo! Maldito seja quem desfez
a vida no teu coração mineiro!
***
Alguns poemas:
Tradução do Soneto 55, de Shakespeare
Nem o mármor, tampouco dos reis os dourados
Monumentos, verão sucumbir estas rimas;
Nestes versos, porém, teu fulgor redobrado
Prevalece ao minério em que o tempo se imprima.
Se revoltas arrancam paredes do chão
E se a guerra às estátuas derruba sem glória,
Nem a espada de Marte nem fogo ousarão
Extinguir os registros da tua memória.
A despeito da morte e do sórdido olvido,
Durarás com mais viço no eterno louvor
Que de mil gerações chegará aos ouvidos
Quando tudo na face da Terra se for.
No Juízo Final voltarás, porém antes
Viverás neste canto e na voz dos amantes.
Sonnet LV
Not marble, nor the gilded monuments
Of princes, shall outlive this powerful rhyme;
But you shall shine more bright in these contents
Than unswept stone, besmear’d with sluttish time.
When wasteful war shall statues overturn,
And broils root out the work of masonry,
Nor Mars his sword, nor war’s quick fire shall burn
The living record of your memory.
‘Gainst death, and all oblivious enmity
Shall you pace forth; your praise shall still find room
Even in the eyes of all posterity
That wear this world out to the ending doom.
So, till the judgment that yourself arise,
You live in this, and dwell in lovers’ eyes.
***
[A paixão entrou pela janela]
A paixão entrou pela janela
Escancarando gavetas,
Rasgando livros,
Quebrando taças de cristal,
Pisoteando intimidades
encaixotadas sob a cama,
Tombando paredes.
Paixão é pássaro truculento.
***
Nunca tive terra
Onde pudesse plantar.
Semeio no vento.
***
passo a tarde lendo
o livro dos colibris –
plena primavera.
***
Canção do desamor
Meu amor, não te quero bem.
Não quero teu sorriso desfraldado feito
o Cruzeiro do Sul sobre a Baía
da Guanabara; quero vê-lo
arrastado pelas sarjetas, borrado de cinzas.
Teu olhar, quero-o todo
coagulado de lágrimas,
grossas como cacos de vidro;
e teus cabelos, impregnados de fuligem e orvalho,
feito a coberta dos mendigos
na Praça Princesa Isabel.
Então recolher teu corpo do meio-fio
e cobri-lo de beijos
como se de varíola, e feri-lo
de carícias, e torturá-lo de ternura.
Depois, dissecar teu sexo com a boca seca.
Mas, amor, não te quero bem.
BIOGRAFIA SUSCINTA - Emmanuel Santiago (São Lourenço/MG, 1984 - Jacareí/SP, 23 de abril de 2026) foi poeta, crítico literário, tradutor e professor. Doutor em Literatura Brasileira pela USP, dedicou-se ao estudo do Parnasianismo, da tradução poética e da obra de Guimarães Rosa.
Publicou, entre outros, Pavão bizarro, A ave Lúcifer, A renga do corvo e O livro dos colibris. Foi também tradutor de Shakespeare, deixando uma obra marcada pelo rigor formal, pela inteligência crítica e pela imaginação rara.

















