
A expectativa do mercado é de aumento entre 15% e 20% no valor das passagens aéreas nas próximas semanas
O recente aumento de cerca de 55% no preço do querosene de aviação - QAV -, anunciado pela Petrobras em abril, acende um alerta vermelho para o turismo brasileiro. Em um intervalo inferior a dois meses, o combustível, que já figura entre os principais custos das companhias aéreas, acumulou uma elevação expressiva, impulsionada pela escalada do conflito no Oriente Médio, com destaque para as tensões envolvendo o Irã e seus impactos diretos sobre o preço internacional do petróleo.
A questão central, no entanto, não está apenas no aumento em si, mas na velocidade e na intensidade com que ele chega ao consumidor final. O QAV representa até 45% dos custos operacionais das companhias aéreas.
Quando há um choque dessa magnitude, o repasse é inevitável e ele já começou. A expectativa do mercado é de aumento entre 15% e 20% no valor das passagens aéreas nas próximas semanas. E é exatamente nesse ponto que o turismo entra em zona de risco.
O Brasil vinha em um ritmo consistente de recuperação do setor turístico, com crescimento gradual da movimentação econômica e retomada do fluxo de viajantes, especialmente no mercado doméstico.
Estados como Sergipe, por exemplo, vinham apresentando resultados positivos, sustentados pelo turismo regional e pela ampliação da malha aérea. Esse avanço, no entanto, pode sofrer uma freada brusca.
O encarecimento das passagens aéreas tem efeito direto sobre a decisão de viajar. Diferentemente de outros custos, o transporte aéreo é, muitas vezes, o fator determinante entre realizar ou adiar uma viagem. Quando o preço sobe, o turista simplesmente recua, especialmente o de renda média, que compõe a maior parte do fluxo interno no país.
Há ainda um efeito colateral importante: a possível redução de voos. Com custos mais elevados, as companhias tendem a enxugar rotas menos rentáveis, afetando principalmente destinos regionais e mercados emergentes. Ou seja, não se trata apenas de passagens mais caras, mas também de menor oferta, um duplo golpe sobre o turismo.
Do ponto de vista econômico, o cenário é paradoxal. O Brasil se beneficia da alta do petróleo como exportador da commodity, o que melhora indicadores fiscais e externos. Porém, internamente, sofre com o aumento dos combustíveis, que pressiona custos, reduz competitividade e afeta setores estratégicos como o turismo, que é altamente sensível a variações de preço.
Se o cenário internacional permanecer tensionado, a tendência é de manutenção dos preços elevados do petróleo e, consequentemente, do querosene de aviação. Nesse contexto, o turismo pode voltar a enfrentar um ciclo de desaceleração, justamente no momento em que consolidava sua recuperação.
Mais do que nunca, será necessário pensar em estratégias para mitigar esse impacto. Seja por meio de incentivos à aviação regional, políticas de estímulo ao turismo interno ou mecanismos que reduzam o custo operacional do setor.
O que está em jogo não é apenas o preço de uma passagem aérea. É o acesso das pessoas ao turismo, a sustentabilidade de destinos emergentes e a continuidade de um setor que gera emprego, renda e desenvolvimento. Se voar ficar mais caro, viajar deixa de ser escolha e volta a ser privilégio.



















