
Jorge Amado: acossado pelo integralista Getúlio Vargas, doce refúgio em Estância
Comunista de carteirinha, Jorge Amado tinha todas as razões do mundo para temer pela sua saúde e pelo próprio pescoço no auge do Estado Novo.
Getúlio Vargas podia ter mãos de moça, como descreveria depois o jornalista Joel Silveira, mas nunca foi flor que se cheire. Urgia escafeder-se. De preferência, para bem longe.
Ao invés de passar frio e morrer de saudades em algum país de língua enrolada, no entanto o escritor de “Gabriela” zombou do autoritarismo ao modo baiano, promovendo festa atrás de festa no interior de Sergipe.
O documentário “Doce exílio”, de Sérgio Borges, foi a Estância para contar essa história. Os documentos a respeito da temporada de Jorge Amado na cidade passam longe de artigo raro, como prova um livro muito conhecido de Rui Nascimento. Nem por isso, o filme é menos oportuno.
Ninguém tem dúvida: Jorge Amado foi um dos maiores escritores de seu tempo. Nem mesmo a injustiça cometida pela Academia Sueca, que ficou lhe devendo um Prêmio Nobel pelo conjunto da obra, como bem lembra o estanciano Clóvis Barbosa, foi capaz de apagar o gênio e o carisma imenso do homem. Ainda assim, acolhida tão pronta não deixa de ser surpreendente.
Parece até ficção, história da carochinha. O escritor é perseguido por um “presidente” acostumado a exorbitar no exercício do próprio poder de mando. De outra matéria, além da prepotência, jamais serão feitos os ditadores.
Contra qualquer expectativa razoável, entretanto, Jorge Amado não foi recebido com temor, nem um pingo de desconfiança. Convém lembrar ironicamente: à época, os comunistas eram afamados devoradores de criancinhas. Papo de integralista!
Desde o primeiro momento, Estância recepcionou Jorge Amado de braços abertos. Não foi à toa. As declarações colhidas pelo documentarista Sérgio Borges dão voltas em torno do mesmo ponto.
Jorge Amado foi uma criatura singular, um ateu capaz de reconhecer milagres. Contra ele, os canhões não tinham fogo, podiam coisa nenhuma.
Retorno ao documentário de quase 10 anos premido pelo embate eleitoral local, mesquinho, raquítico. De um lado, um governador assombrado pelas circunstâncias de vitória pregressa. Do outro, a prefeita de uma capital constrangida pelas cobranças de antanho, quando atirava pedras contra as vidraças do poder de turno.
Confronto um e outro, sem arrego de lirismo. Falta ao confronto um poeta versado em putas e bêbados, um romancista da vida real, capaz de improvisar um samba sob o estampido do arbítrio.
















