Articulista
Tanuza Oliveira

É jornalista profissional. Escreve às terças.

A política que tolera o despreparo - desde que seja masculino
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Está longe o dia em que a mulher será tratada com a mesmo cuidado que os homens na política

Em recente uso da tribuna, o atual prefeito de Itabaiana, Zequinha da Cenoura, que assumiu o cargo após a saída de Valmir de Francisquinho, protagonizou uma fala que rapidamente ganhou repercussão. Ao tentar descrever os desafios da gestão pública, afirmou que comandar um município como Itabaiana “não é fácil, mas também não é difícil”.

Com muita simplicidade e um toque de bom humor, ele acabou sintetizando algo maior do que um momento de improviso ou nervosismo que evidenciou uma dificuldade de comunicação que não é pontual - e que, em outros contextos, poderia ter consequências mais severas para quem ocupa um cargo público.

Mas o episódio revela mais do que uma limitação individual. Ele expõe um padrão antigo e ainda bastante presente na política brasileira: a diferença de exigência entre homens e mulheres que ocupam ou pretendem ocupar espaços de poder.

Para os homens, a régua costuma ser mais flexível: falas confusas, ideias pouco articuladas ou dificuldades de expressão raramente se transformam em barreiras reais. Muitas vezes, são tratadas como deslizes pontuais, rapidamente relativizados diante de fatores como capital político, alianças ou trajetória eleitoral.

O próprio caso recente é ilustrativo: a repercussão existe, o vídeo circula, há comentários, mas dificilmente esse tipo de exposição se converte em um questionamento mais profundo sobre preparo, capacidade ou legitimidade para o cargo.

Já para as mulheres, o cenário é outro. Antes mesmo de ingressarem na vida pública, elas precisam provar - e comprovar - sua capacidade. São cobradas pela formação acadêmica, pela experiência profissional, pela coerência de discurso, pela postura, pela imagem, pela vida pessoal. Precisam falar bem, se posicionar com segurança, demonstrar preparo técnico e, acima de tudo, apresentar um propósito claro que justifique sua presença naquele espaço.

E essa exigência maior não é apenas uma percepção. Ela se reflete nos números: embora sejam maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres ainda ocupam uma parcela significativamente menor dos mandatos eletivos. Ao longo da história recente, sua presença no Congresso Nacional permaneceu reduzida, mesmo após políticas de incentivo à participação.

Ou seja: entram menos mulheres - e, quando entram, é sob muito mais cobrança. Não se trata de exigir menos dos homens, mas de reconhecer que se exige demais das mulheres. Ou, pior, que se aceita de menos quando o ocupante do cargo é homem.

É evidente que a boa comunicação, por si só, não define a qualidade de um gestor público. Há líderes eficientes que não são grandes oradores, assim como há discursos eloquentes que não se traduzem em boa gestão - e também nada contra a simplicidade de Zequinha. 

O problema, no entanto, está na naturalização desse tipo de limitação quando ela se apresenta em determinados perfis. Se fosse uma mulher na tribuna, dizendo que governar “não é fácil, mas também não é difícil”, a reação seria a mesma? Ou estaríamos diante de uma enxurrada de questionamentos sobre preparo, competência e capacidade de liderança?

A resposta, ainda que incômoda, parece evidente. O Brasil ainda convive com uma cultura política que abre portas com mais facilidade para uns e impõe provas constantes a outras. Enquanto mulheres seguem sendo cobradas a provar que são capazes, muitos homens ainda não precisam provar sequer que estão preparados. E obviamente isso amplia a desigualdade na política!

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