Aparte
Opinião - Monte Alegre, 1988-2020: crônica de tragédias eleitorais e falsas esperanças (IV)

[*] Jean Marcos da Silva

A atual prefeita e seu esposo, hábeis articuladores, aparentemente operaram no sentido de desintegrar o grupo adversário, de modo que, ao tempo em que desestabilizavam os adversários internos -o ex-prefeito João Vieira e a esposa -, faziam o mesmo também com os arquirrivais de décadas, Osmar e Tonhão.

Trabalharam no sentido de atrair Osmar para sua órbita política, o que a princípio foi alcançado, conforme demonstrou a adesão do popular vereador Junior Farias, filho de Osmar, à bancada da situação.

Os acordos tentados entre Nena e Osmar aparentemente falharam, mas ela, habilidosa, atraiu para si importante integrante do agrupamento de Tonhão e Osmar, o vereador Bibia do povoado Couro, sempre muito votado, principalmente nos povoados no extremo oeste do município, na divisa com a Bahia. 

O agrupamento de Osmar e Tonhão, além da perda de Bibia, sofria de conflitos entre os dois líderes citados, disputando ambos a liderança do bloco. Osmar aparentemente desejava lançar seu filho candidato a prefeito, apoiando-se no fato de que Tonhão já havia se candidatado três vezes consecutivas pelo grupo e perdido a reeleição. 

Tonhão, outro político habilidoso, configurou-se como o principal herdeiro do espólio eleitoral do agrupamento, cativando-o e cevando-o ao longo de quatro eleições majoritárias e três mandatos de vereador. Assim, constituiu seu próprio capital político às custas do tio, sobrepujando-o em habilidade e em votos. A ruptura entre ambos favorecia Nena.

Outro pretendente entrou na trama, o vereador Acrísio Pereira, a princípio eleito no grupo de Nena, mas que oscilou, ao longo do mandato, entre a situação e a oposição. Empresário familiar do ramo de armarinho e variedades, com lojas em Monte Alegre e Canindé, desde a eleição para vereador anunciava sua pretensão de disputar a Prefeitura no pleito seguinte.

Com manifesta ambição política - pretende ser deputado estadual -, foi presidente da Câmara nos dois primeiros anos de mandato, tendo construído a sede própria do Poder Legislativo local, o que, no seu entender, projeta-o como grande realizador. Por fim, montou volumoso grupo de candidatos a vereador, principalmente do Podemos que, a princípio, estava com Aragão. 

O último agente dessa rocambolesca disputa é o vereador Doge de Paco Paco, também eleito no grupo de Nena, mas que igualmente oscilou entre situação e oposição. Pequeno empresário dos ramos de hotelaria, alimentação e imobiliário, fundou uma organização social que oferece serviços assistenciais e cursos profissionalizantes a partir dos quais buscou projetar-se politicamente. Foi e é cabo eleitoral do deputado federal Valdevan Noventa, obtendo muitos votos para este em 2018, contando com o mesmo como orientador político.

Mas o quadro da disputa ainda não estava definido. Ao longo de 2020 foram surgindo operações de aglutinação política, que, nas circunstâncias competitivas de conflitos internos aos dois grupos, seriam meros arranjos de conveniência e de ambições, não reduzindo completamente a fragmentação. Apesar dos desníveis entre os candidatos, todos pareciam capazes de obter votação acima dos 5% dos votos válidos, fazendo dessa a eleição mais concorrida do município.

Era a primeira vez que os dois grupos político-eleitorais locais rachavam internamente ao mesmo tempo, gerando uma incerteza maior que o normal sobre os resultados do pleito. A ambição de todos os pleiteantes explica esses surpreendentes rachas, também explicados pelas estratégias colocadas em prática pelos contendores. 

Desde 2019, negociações foram estabelecidas para selar possível aliança entre os ex-prefeitos e ex-rivais Aragão (João Vieira) e Tonhão. Negociação custosa, pois ambos queriam a posição de titular, e não de vice. Outra dificuldade era a potencial fragmentação do eleitorado de ambos, pois, depois de décadas cevados na raiva eleitoral recíproca, muitos não admitiriam unir-se aos adversários de longa data.

A primeira incorporação se deu com a junção de Doge como vice de Junior Farias. A essa altura da disputa, foi divulgada a primeira pesquisa eleitoral para o pleito. 

Realizada entre 12 e 18 de maio deste ano pelo IFP, com uma amostra de 560 entrevistados por telefone, e margem de erro de 4,04%, a induzida indicava: Valdirene com 37,1%, Nena com 32,6%, Junior/Doge com 10% e Acrísio Pereira com 5%; indecisos foram 4,4%; branco/nulo/nenhum somaram 10,9%. Apesar da leve vantagem de Valdirene, esse cenário apontava empate técnico entre ela e Nena, ainda antes de iniciada de fato a campanha, mostrando também a fragmentação potencial dos votos.

A pesquisa seguinte, realizada pelo ECM e Dataform, feita presencialmente com 400 entrevistados entre os dias 6 e 7 de outubro, com margem de erro de 4,81%, encontrou um cenário diferente. O candidato Acrísio Pereira conseguiu trazer para si Doge e Junior Farias, fazendo deste seu candidato a vice, apesar de, na pesquisa de maio, os absorvidos pontuarem com mais chances do que aquele que os absorveu.

A citada pesquisa de outubro causou reboliço, pois apontou Nena com significativa vantagem sobre Valdirene (35,5%x19,5%, vantagem de 16%). A meteórica ascensão de Acrísio (que pontuou com 19,75%) é facilmente explicada pelo fato de que era a pontuação de três chapas.

A alegação dos "prejudicados" pela pesquisa é de que ela seria "falsa", chegando até a apontar uma suposta "prova" dessa falsidade: um simples erro de digitalização do jornal eletrônico Cinformonline, que divulgou a enquete em sua edição de 12/10/2020. O erro foi a reprodução da fotografia dos candidatos de Poço Verde (cuja pesquisa também apareceu na mesma edição do jornal) no lugar das imagens dos candidatos monte-alegrenses. No entanto, os percentuais eram aqueles dos candidatos locais, reproduzidos em tabela anterior ao gráfico onde o simples erro de digitalização aparece. 

Polêmicas à parte, é preciso levar em conta que, independente dos números e da confiabilidade do instituto, as pesquisas revelam mais as tendências do que os percentuais exatos. Naquela circunstância, em que a campanha mal tinha iniciado na prática, e depois do momentâneo afastamento efetivo de Valdirene, em virtude do seu trágico adoecimento pelo coronavírus, o cenário parecia de queda para a candidatura dela. 

Os cenários mudam e, no momento, parecem apontar para um arrefecimento de Acrísio, depois de intenso oba-oba em torno de sua chapa. Mas a diminuição do ímpeto não parece apontar para uma votação irrisória e, nessa confusa conjuntura eleitoral, é equivocado descartar suas chances de vitória. 

Por outro lado, a disputa parece ter voltado a se concentrar entre Nena e Valdirene, embora uma vitória de qualquer uma delas não vá contrariar os padrões da recente história eleitoral do município. Quem ganhar não terá grande vantagem sobre a segunda (o) e terceiro (a) colocados. Sob este aspecto, a presente eleição assemelha-se um pouco à de 1992, mas marcada por uma competição ainda mais acirrada e uma elite política ainda mais dividida.

Todas as chapas monte-alegrenses, desde o início, recorreram a uma estética e uma retórica modernosas: intenções genéricas de melhorar serviços públicos, promessas de obras em profusão, uso abundante da palavra "projetos" etc. Os candidatos parecem crer que a prefeitura local tem licença federal para emitir moeda. 

Essa estética e marketing "modernos" não passam de glacês superficiais sobre doces já provados, todos contendo as clássicas receitas do clientelismo difuso: assistencialismo, realização de deveres institucionais como favores que cobram dívidas morais dos beneficiados, ligação com redes de trocas de favores políticos mais amplas  (deputados federais e estaduais, etc.), negociações políticas obscuras, promessas de emprego na prefeitura como forma de carrear votos de famílias inteiras etc.

Um dos candidatos apresenta-se como a renovação, apesar de incorporar em sua chapa velho líder político local, com longeva carreira política de 38 anos. 

Enquanto isso, uma candidata confunde progresso com pavimentação asfáltica de ruas com recursos do governo estadual, momentâneo embelezamento de pequenas praças e canteiros e calçamento de ruas às vésperas da eleição. E uma outra candidata fantasia um idílico passado em que a gente do lugar sorria e promete que fará brotar nova safra de sorrisos. 

Sabedores pragmáticos de que em Monte Alegre a unidade social básica é a família e não o indivíduo, os candidatos apelam para fidelidades antigas, traições recentes dos adversários e promessas de vantagens futuras como forma de conquistar de uma só vez dezenas de votos. 

Numa economia revolvida pelas transformações capitalistas das últimas três décadas, mas não abençoada com as promessas dessa moderna sociedade (dinâmico mercado de trabalho), resta às pessoas, para lidar com as irregularidades desse mundo mercantil, apegar-se a mais estável das instituições locais, a família. Provendo um lugar no mundo, o vislumbre de um futuro (mesmo que como mera reprodução do presente) e assistência econômica nas horas difíceis, distanciar-se da família é quase certeza de derrota social. 

Um candidato a vereador que tem sido fonte informativa de todas as tramas aqui narradas (e de algumas não escritas, por razões evidentes), justificando sua candidatura, disse que nunca teve oportunidades de trabalhos não braçais e que, agora, era a sua vez de "mamar" (sic). 

Atualmente, trabalhador por conta própria, mas migrante repetente para trabalhar em obras no Centro-Sul do país, sempre esteve com sua família na rede clientelística de um dos chefes políticos locais, o que acabou por beneficiar irmãos seus "entrados" como servidores efetivos em um dos antigos "trenzinhos da alegria". 

Rompido com um dos chefes do grupo político ao qual sempre esteve ligado, em virtude de prejuízos profissionais causados a ele pelo chefe quando de uma gestão do mesmo, foi assediado por muitos dos candidatos citados, que apresentaram vantajosas propostas. Objetivavam com isso trazer toda uma numerosa parentela, de familiares em linha reta, colateral ou por afinidade. 

O candidato a vereador diz estar tranquilo, pois acredita que, mesmo sendo derrotado na disputa para a Câmara, seu novo grupo vencerá a disputa majoritária. Estará sossegado, diz ele, pois tem garantido por acordos cinco empregos na prefeitura, mais uma posição de chefia de alguma repartição, talvez uma secretaria. Será a redenção social de um batalhador brasileiro e a manutenção da pobreza e dificuldades históricas de Monte Alegre. 

Essa é uma amostra do que parece ser a máxima potência da política monte-alegrense: a conversão, por ricos e pobres, do Estado brasileiro, de padrasto insensível, em mãe bondosa que amamenta seus filhos, mas só aqueles abençoados pela vitória da vez.

[*] É graduado em Ciências Sociais pela UFS e professor efetivo de Sociologia da rede pública estadual de Alagoas.

 

 

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