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DAS ONZE HORAS
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Poema Jozailto Lima/Ilustração Ronaldson/Michelangelo

já fui moço.
 

moço desses de cobiçar a lua

com a vara ainda verde.
sonhava pernas de mulheres.

 

muitas pernas de todas as cores,
e com sotaques diferentes,
como o do alemão padre paulo 

que me levou ao sacramento da pia.

mas não desenhava no céu
uma delas de por minha infinitamente, 

assim dona da senha dos meus passos,
amor eterno, contrato de cartório 

e bolinhos de feijão com torresmos 

macerados a mão no chão da sala 

e da cumplicidade.

não arquitetei a virtude do casar.
nem idealizei os capões de cristas 

tristes e carnes tenras,
até que a onze horas se abriu em pétalas miúdas 

e de vermelho carmim no terreiro da avó 
que atou meu destino ao de carmélia.

e dos sete meninos rebentados 

de nossa horta, fez-se o nó 

que nem o dedo sagaz de deus desata.
mas não era plano matrimoniar-me.

 

não ser um rapaz velho,
com a crista turva dos capões,
devo aos tufos vermelhinhos da onze horas.

os tufos, como nos inebriam e nos infundem 

o fuso do reproduzir-se e nos desviam 

do destino redondo e eunuco dos capões.

 

(Poema inédito)

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Maruze Oliveira Reis
Como são belas as histórias contadas pela poesia! As palavras na linguagem poética transformam as mãos da avó, e as pétalas miúdas em profundas raízes dos começos. Fonte inesgotável de vida e poesia.
Ueliton
Você é um gênio
Ylvange tavares
Vc tá muito erótico! Adorei
Aglacy Mary
O ineditismo do poeta e do ilustrador parece dar corda no relógio que é pulso/pulsão de todo tipo de vida. O domingo ganhou um daqueles poemas que, enquanto é lido, exibe cenas que se pode ver, ouvir, sentir. E traz versos que parecem colo de mulher, de tão calor que as palavras produzem juntas: “uma delas de por minha infinitamente,” Queria ter escrito essa linha.
Jaime Almeida da Cunha
Muito boa. Gostei.
Telma
O erotismo suave desse poema delicia os olhos em imagens de poeta amoroso. Parabéns Jozailto. A ilustração do Ronaldson, como sempre, enriquecem o tema, o texto, o contexto. Parabéns à dupla.