Aparte
Opinião – O BBB21 é um Tumbeiro televisivo a desserviço da causa negra. Reajamos!

[*] Mario Resende

Não assisto ao Big Brother Brasil. Aliás, vejo pouco televisão desde o ano de 2004. Mas não consigo ficar imune a avalanche de postagens nas redes sociais sobre o que ocorre naquele programa da Globo que já vai em sua 21ª edição.

Diante de tudo que li e ouvi, nomino, inicialmente, o BBB 21 como um Tumbeiro - um daqueles horrorosos navios que transportaram os 12,5 milhões dos nossos ancestrais escravizados pra América em apenas três séculos.

No caso específico do BBB21, uma experiência modificada e adaptada aos novos tempos. Negros confinados dentro de uma casa, cujas narrativas, imagens, sonhos e possibilidades são construídas por brancos que a dirigem. Para corroborar na construção “limpinha” do enredo, colocaram nesse navio 50% de brancos. 

O jornalista Arthur Xexéu, a quem tenho imenso respeito, chama atenção para um fato no Globo de hoje: que o atual BBB poderá fragilizar o movimento negro. Eu concordo em partes.

Ele só “esqueceu” de escrever do roteiro pensado, a partir das escolhas dos participantes, da construção das falas e da edição dos pensamentos e imagens, mostrando supostos militontos negros com todos os defeitos e práticas que os execram e que tanto combatemos.

Gente que racializa conversas sobre a lua, mas ofende aos pretos pobres que não dominam a linguagem ressignificada e empoderada necessária à luta. É até chique falar bonito. Tombar! 

Repito, é um Tumbeiro do século XXI. Lá no convés, a branca Globo ganha milhões e alegra a branquitude sedenta cá fora, com negros se digladiando em busca de uma “fortuna fácil”. Ora, vamos ficar silenciados até quando?

Quanto ao que podemos aferir de verdadeiro, nada de novo no front. É o retrato do Brasil que despeja seu ódio contra os negros, em especial, alô, alô, contra os negros mais pobres, os negros nordestinos, os negros da periferia de São Paulo, tratados como menores, naquele navio de moer gente em busca de fama e dinheiro, por outros sudestinos negros, de Curitiba e Porto Alegre, presentes no programa.

Tudo aquilo é uma distopia horrorosa. Esse amálgama de tensões, naquele espaço, choca ainda mais porque os donos do terror psicológico, os preconceitos de todas as matrizes e de todos os matizes, contra alguns participantes negros, narra-se, não são oriundos dos brancos no programa, mas do que denomino “dos nossos”, do que por vezes convenciono chamar dos “donos da melanina”.

São os lacradores que usam o pensamento de Lélia Gonzalez, Frans Fanon, Milton Santos, Cabengelê Munanga, Nilma Gomes, etc, para ganhar likes. Como  concebemos a negritude por diversa e complexa, humanos que somos, sabemos, nem todos são aliados ou parceiros.

Por isso, sabemos que a luta maior, coletiva, a costura dos diversos tecidos subjetivos negros, esgarçados na diáspora, não faz parte dos buscadores de likes.

Estes, expostos ao grande público, desmoronam nas suas contradições, com suas práticas de homofobia, bifobia, racismo explícito, humilhação e horror aos irmãos negros pobres, representados na pessoa de Lucas, um poeta e ator da periferia de São Paulo que, humilhado, desprezado, traído, achincalhado, pediu para ir embora. 

O Movimento Negro tenderá a perder com o BBB desse ano? Acho bom atentar para essa narrativa e construir uma resposta sem passar pano ou justificar tendências, ser conivente ou ser mais um distópico na situação em que vivemos.

O que observamos nas redes é que determinados participantes se comportam e são um espelho de nichos da “militância acadêmica”, expressa em um comportamento individualista, arrogante, prepotente e hipócrita, desfalcado da realidade objetiva e a-histórico.

Mas é preciso observar, no discurso de Arthur Xexéu, uma banalização da palavra militância, colocando dentro de um mesmo espaço do movimento negro, organizações orgânicas e outros diversos profissionais que usam a causa, mas não militam organicamente num grupo ou organização. São militantes de quem? Do eu sozinho?

Se, propositadamente, o BBB21 busca banalizar as lutas dos movimentos negros, expondo-os e “cancelando” todos os negros do programa, mostrando os mesmos no que têm de contradição e desumanidades, sem pudores ou empatias, saibam, esses valores são essenciais ao papel do ser militante.

Em um país com rumo incerto, democracia fragilizada, com recordes cotidianos de mortes por Covid-19, desemprego nas alturas e submerso em uma apatia paralisante, a Globo encontrou no BBB21 não só uma forma de não colaborar com o debate real sobre os problemas da população negra e diversa do Brasil, mas também de dividir, execrar e massificar uma ideia nefasta sobre o que chama de “militantes” negros.

Desde quando exposições individuais representam a coletividade? Devemos também, com certa urgência, reaprender a separar as sementes do baobá do joio. Bater palmas para os caçadores de “likes” e “lacradores” da nossa causa, da luta de um povo vítima de uma diáspora e escravizado por séculos, é alimentar a branquitute salva mais uma vez, naquele navio de horrores, como bela, angelical, tranquila, harmoniosa. Nós, os pretos, os vilões. 

Em resposta a Xexéu, precisamos despertar urgentemente para o problema e será de grande monta não só ter consciência desse ataque perverso como também lançarmos perguntas necessárias.

Precisamos despertar urgentemente e ocupar as redes para desconstruir as narrativas e comportamentos nefastos dos integrantes do BBB21 e da narrativa fundante do programa e da emissora.

Aqueles que estão lá, rasos e perversos, não são e não praticam atitudes de militantes positivas. O que eles fazem não nos representam. Em nosso nome não. Com nossa luta, nunca! 

[*] É professor da UFS.

 

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