Aparte
Opinião - O tempo e os fatos fizeram justiça a João Alves

[*] Luciano Correia

Os últimos anos do “doutor João”, como o povo o consagrou, foram um bom exemplo de como o processo histórico vai sedimentando a versão final da biografia dos homens públicos que marcaram seu tempo e lugar.

O João Alves Filho, que já foi tão ideológico, liberal convicto, crítico ferrenho da esquerda, foi cada vez mais se firmando como o gestor, o político que trouxe uma nova visão, o sonho dos grandes projetos, uma novidade no Sergipe historicamente governado por políticos com foco estritamente na política.

O tempo se encarregou de tirá-lo de qualquer classificação política, da velha fórmula direita-esquerda, para instalá-lo no patamar raro dos que exerceram governos desenvolvimentistas, quiçá sob inspiração do exemplo maior do país, o de Juscelino Kubitschek.

Num ambiente envenenado por disputas e perseguições, João Alves sempre demonstrou um desapego às iniquidades da política paroquial. Seus governos sempre foram diversos, feitos de gente de todos os matizes, sem que jamais se ocupasse em apurar procedências ou filiações partidárias.

Trabalhei no seu segundo governo, entre 1993 e 1994, mesmo tendo sido militante notório da esquerda, primeiro do PT, do qual fui fundador e membro da primeira Executiva Estadual de Sergipe, e depois do PCB, o velho Partidão. Éramos os comunistas de Theotônio Neto, o plural e competente secretário de Comunicação que tinha cacife para bancar sua equipe sem precisar justificar nada a ninguém.

Certamente, na cabeça do Negão João Alves, o que importava era também competência e fôlego para aguentar seu repuxo. Quantas e quantas vezes não me vi à meia noite em eventos em Porto da Folha, Monte Alegre ou Cristinápolis, cansado, com fome, sem saber que horas chegaria em casa, e o Negão alucinado em cima de um palanque, falando em coisas como fruticultura irrigada - que realizou no Platô de Neópolis -, irrigação no São Francisco - que implantou nos projetos Califórnia e Jacaré-Curituba, em Canindé.

O Negão encantado com um boom turístico que nunca veio, mas que deixou plantadas, ao menos, as sementes de uma política de turismo para o Estado. O Negão das estradas, como a Rodovia Sarney, uma nova fronteira no litoral sul de Aracaju, embrião da futura Linha Verde sergipana, do Centro de Criatividade, do Teatro Tobias Barreto e de uma visão moderna da cultura, ele próprio um consumidor voraz de livros e de discos, apreciador de Nat King Cole.

Certa vez fui fazer uma matéria com ele, que estava despachando no seu apartamento, e o encontrei numa mesa de trabalho com vários livros de economia e desenvolvimento, rascunhando um artigo para um jornal do sul, ao som baixinho de Unforgettable. O João Negão que, recém-formado engenheiro pela Politécnica da UFBA, foi conhecer projetos de engenharia implantados na Califórnia, quando então se encantou com gente como John Steinbeck de As Vinhas da Ira e com ideias como as do New Deal, o plano econômico de Franklin Delano Roosevelt que tirou os Estados Unidos da depressão dos anos 30. Quantas vezes não ouvi esse nome: New Deal!?

Esse político, essencialmente político, que tinha mais tesão por gestão do que pela própria política, com os erros e acertos que carregava, foi aumentando de tamanho na história do pequenino Sergipe. Mesmo que fizesse um governo desastroso na Prefeitura de Aracaju de 2013 a 2016 – sabe-se agora que já estava bastante doente, a única explicação para um gestor competente fracassar numa missão tão simples para um administrador com sua capacidade e experiência.

O hiato dessa última passagem pela PMA não diminuiu o tamanho de sua biografia e, ademais, só foi crescendo com o tempo, também motivado pela qualidade dos que vieram depois dele no Governo do Estado, um a um, quase todos, maus políticos e piores gestores, até a situação de crise e desmonte a que chegamos, em que o atual governador Belivaldo Chagas luta bravamente para superar, tentando salvar um estado naufragado por gestões negligentes com nosso povo e nosso futuro. O Negão João Alves era um vendedor de sonhos e, para surpresa dos incrédulos, os realizava.

[*] Luciano Correia é jornalista e presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju – Funcaju.

 

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