Aparte
Opinião - Monte Alegre, um museu de grandes novidades 

[*] Jean Marcos da Silva 

O resultado da eleição majoritária em Monte Alegre causou surpresa geral. Nena foi reeleita com 4.214 votos - 44,61% dos votos válidos -, 1.425 votos à frente de Acrísio - 2.789 votos, 29,53% dos válidos - e 1.771 à frente de Valdirene - 2.443 votos, 25,86%. Como explicar essa significativa vitória, só antevista por apostadores aventureiros, profissionais do risco?

Primeiramente, é preciso lembrar que esse tipo de vitória não é inédita na recente história eleitoral local. Em 1992, o candidato da situação, Tonhão, venceu dois concorrentes de peso, o ex-prefeito Mané de Dé e Luciano Lino, candidato do ex-prefeito Edmilson Pereira. A vitória ocorreu com percentual semelhante ao do atual pleito: 42,2% para o primeiro, 30,3% para o segundo e 27,5% para o terceiro. 

O elemento comum a essas duas eleições foi a divisão dos adversários favorecendo a situação. A alegação dos vencedores de que essa vitória foi a maior “lapada” da história montealegrense é fruto de euforia excessiva, ignorância histórica ou semianalfabetismo, pois revela atrelamento a números absolutos, ignorando o mais relevante, que são os percentuais. 

Não é verdade, pois a maior “lapada” continua sendo a de João Vieira em 2004 sobre Osmar, de 15,10% de vantagem nos votos válidos, sendo a única vez em que alguém obteve maioria entre todo o eleitorado - 53,9%, muito superior aos 36,5% de Nena em 2020. A acachapante vitória de 2004 deveu-se a circunstâncias muito singulares, irrepetíveis, que tentei explicar em texto anterior.

Em segundo lugar, um destaque dessa eleição foi a habilidade estratégica de Luciano e Nena, contrastada com a falta de tirocínio político de seus adversários. João Vieira, com elevado percentual de rejeição, prejudicou-se ainda mais ao aliar-se com seu rival Tonhão, também muito rejeitado. Deram verdadeiro abraço de afogados. 

Ao fazer inusitada aliança, Aragão levou parte diminuta do eleitorado do grupo que representava junto com Nena, pois a população local é muito dividida, tendo sido nutrida na repulsa recíproca entre “bicudos” - grupo de Osmar-Tonhão - e “cabeças-abelhas” - grupo de Aragão, Nena e Zé de Dé. João Vieira levou consigo algo em torno de 600 votos, sua clientela eleitoral mais direta e fiel. A maioria o viu como um traidor ambicioso.

Tonhão também cometeu o mesmo erro, aliando-se a um adversário-“inimigo” achincalhado por ele em eleições anteriores. Mas sua base clientelística é maior e mais fiel, pois também é maior sua disposição de subsidiá-la, em contraste com a comentada penúria e sovinice de João Vieira. Essa estranha aliança fez os dois líderes perderem eleitores que sempre os acompanharam.

Mas houve outros erros que colaboraram para a vergonhosa derrota. Segundo alguns cabos eleitorais, a derrota foi a ausência de Tonhão da campanha. Segundo disseram, ele não frequentava tanto o comitê nem acompanhava regularmente os atos de campanha, não indo pedir votos de porta em porta na rua.

Essa suposta inapetência teria sido responsável também pela derrota de seu candidato a vereador, Negão Irmão de Tonhão, que teve apenas 188 votos. A outra razão, enfim, foi a alegada penúria da campanha da chapa, aparentemente a mais pobre das três.

A derrota de Acrísio não foi surpresa. Mas ele marcou boa posição na disputa, ao vencer a aliança Aragão-Tonhão com 346 votos de vantagem. Ele e os articuladores do seu entorno saíram-se vitoriosos apesar da derrota, pois podem configurar um novo agrupamento político local.

O principal vitorioso aí é Osmar, que assistiu de camarote à desmoralizante derrota de Tonhão e ajudou a eleger como vereador um ex-agente da rede clientelística do mesmo: o irmão de Tonhão, Ricardo Arcanjo, com ele rompido para aliar-se a Osmar. Ricardo teve 372 votos, praticamente o dobro do candidato de Tonhão, já citado. 

Os vitoriosos foram Nena e Luciano, pois viram a derrota fragorosa de João Vieira, desmoralizado e incapaz de disputar com eles a liderança do grupo. Também derrotaram Tonhão, que sai enfraquecido e sem o apoio do seu grupo.

Outro grande vitorioso foi o vice-prefeito eleito, o Bibia do Couro. Assediado por João Vieira antes de fechar acordo com Nena e Luciano, teve seu passe valorizado nesse estranho campeonato. Demonstrou grande capacidade de transferência de votos, revelando-se verdadeiro “vice-rei” do extremo oeste do município, a região mais pobre. 

Bibia ainda elegeu seu filho vereador mais votado. No cenário de fragmentação político-eleitoral, criou independência de seus “chefes” Osmar e Tonhão, saindo dessa eleição maior que eles e assumindo posição de primeiro plano.

O ponto de virada da eleição passou a ser percebido na última semana de campanha, principalmente depois dos atos realizados por Acrísio e Nena, na terça e quarta-feira, bem maiores que a última grande manifestação da campanha de Valdirene.

A essa altura, as apostas já ocorriam dando por certa a vitória de Nena. A disputa dos apostadores era em torno da vantagem de Nena sobre Valdirene - se mais ou menos de mil votos - e sobre quem seria o segundo colocado, se Valdirene ou Acrísio.

Por fim, para desânimo dos mais fanáticos adesistas ao “Governo Participativo da Família”, a prefeita foi reeleita com 290 votos e quase 5% a menos do que na eleição anterior. E cabe lembrar que ela teve apenas 36,5% dos votos de todo o eleitorado, num cenário de crescente apatia política, com abstenção de 14% do eleitorado - que não se deve à pandemia, pois infelizmente ninguém nas ruas está preocupado com isso...!

Outro fator a levar em conta é o de que em breve a prefeita precisará se desfazer das centenas de funcionários contratados que incorporou nos 6 meses antes da eleição. Importante estratégia de consolidação e ampliação de sua base eleitoral, isso representa custo insuportável para a paupérrima prefeitura. A demissão será o prenúncio de rupturas e queda de popularidade. 

Como conciliar esse desfecho inevitável com o apetite de seus novos e antigos aliados? Esse o preâmbulo dos conflitos internos iminentes, a quebrar a doce ilusão de uma, por hora não-visível, longeva era “nenista”. Nena não é uma líder com inquestionável prestígio de massas. As próximas batalhas prometem ser aguerridas como sempre.

[*] É graduado em Ciências Sociais pela UFS e professor efetivo de Sociologia da rede pública estadual de Alagoas.

 

Ω Quer receber gratuitamente as principais notícias do JLPolítica no seu WhatsApp? Clique aqui.

Deixe seu Comentário

*Campos obrigatórios.