Aparte
Livro ressalta ação feminina durante período da ditadura 

Aline Matos: “Acredito que a principal contribuição da obra é dar visibilidade à atuação feminina”

Nesta quinta-feira, 21, a sergipana Maria Aline Matos de Oliveira lança “Em Busca da Liberdade: memória do movimento feminino pela anistia em Sergipe (1975-1979)”, um livro que resgata o protagonismo feminino durante o período sombrio da ditadura militar brasileira. 

Mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe, professora e CEO da Humanas Instituto de Assessoria Acadêmica, Aline Matos tem 32 anos e lança seu primeiro livro fruto da dissertação de mestrado concluído em 2020.

“Ele apresenta o papel da militância feminina na campanha da anistia em Sergipe, no contexto da ditadura civil-militar no Brasil, na década de 70. É uma obra historiográfica, realizada com rigor metodológico e científico. Nela, o leitor vai conhecer a força e a ousadia de mulheres, militantes, mães e filhas que ousaram erguer as suas vozes”, resume a autora.

Esse movimento, lançado em Sergipe em 1978, ficou conhecido como núcleo estadual do Movimento Feminino pela Anistia e foi liderando pela professora universitária, poetisa e intelectual Núbia Marques junto a um grupo de mulheres, estudantes e militantes do Partido Comunista e da Ação Popular.

“Entre elas, destaca-se a “tríade subversiva” Laura Marques, Ana Côrtes e Zelita Correia, três mulheres que foram presas, torturadas e, duas delas, violentadas sexualmente nos “borrões” do DOI-CODI - Departamento de Operações de Informações de Defesa Interna -, órgão repressivo da ditadura civil-militar”, narra.

A pesquisa historiográfica sobre a memória e atuação de mulheres na campanha da anistia em Sergipe, que o livro traz, retoma discussões humanitárias e simbólicas sobre gênero, militância e resistência que não devem ser “minimizadas” ou esquecidas pela acadêmica e pela sociedade civil. 

“Mas que devem ser lembradas, colocadas em cena, para que essa situação não se repita”, ressalta Aline. O livro é divido em três capítulos. O primeiro, A Voz Feminina em Ação no Quadro Repressivo da Ditadura, analisa, a princípio, a invisibilidade da mulher na história e a atuação dos movimentos femininos no Cone-Sul no período ditatorial.

O segundo capítulo, O Sol da Liberdade Memória do Movimento Feminino pela Anistia em Sergipe, destaca como foi articulado a formação do núcleo estadual do Movimento Feminino pela Anistia em 1978.

E, por último, o terceiro capítulo, Do MFPA ao Conselho da Condição Feminina: Feminino x Feminista no Movimento de Mulheres, que apresenta, inicialmente, a formação do movimento feminista “de segunda onda” no Brasil e o duelo do discurso protagonizado dentro da campanha do MFPA nacional entre feminino x feminista. 

O primeiro contato da autora com o tema do movimento feminino pela anistia em Sergipe ocorreu durante uma pesquisa realizada no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência - PIBID – Capes - UFS -, em 2014, orientada pela doutora Célia Costa Cardoso. 

A partir desse projeto, a pesquisa teve andamento, com a busca de fontes históricas, jornais, documentos secretos do Serviço Nacional de Informações - SNI - e entrevistas a membros da campanha da anistia em Sergipe. 

“Acredito que a principal contribuição da obra é dar visibilidade à atuação feminina ao “romper” com a “escuridão” da pesquisa acadêmica que valoriza muitas vezes os homens militantes e deixava a figura feminina como coadjuvante da história. Embora tenha-se constatado a recorrência dessa atuação em muitos trabalhos acadêmicos, valorizando as mulheres como protagonista da ação política”, analisa.

Para Aline, aliás, a atuação feminina no cenário político, apesar de algo histórico e cada vez mais presente, ainda não é o suficiente. “Infelizmente, ainda somos minoria em cargos políticos e em mandatos legislativos”, opina.

O capítulo três da obra, inclusive, apresenta a continuidade da militância feminina em Sergipe. “Na década de 80, no período da redemocratização do Brasil, a maioria das mulheres que participaram na década de 70 do Movimento Feminino pela Anistia continuou em ação e em, 1986, fundou o primeiro Conselho da Condição Feminina de Aracaju”, destaca.

Esse Conselho tinha a finalidade de promover políticas públicas que visavam eliminar a plena discriminação da mulher, assegurando-lhe condições de liberdade, igualdade de direitos. Questionada sobre como se sente ao lançar uma obra que fala sobre um período tão negado no Brasil, ela admite que não há uma resposta fácil.

“Como pesquisadora, mulher e historiadora, observo que o negacionismo / revisionismo é perigoso. Ao se pretenderem verdadeiros, recriam, não uma história, mas uma memória sobre um passado mítico, apologético, da atuação “heroica” dos militares no poder público. O que diferencia o pesquisador do negacionista é a verdade histórica”, reforça. E a verdade está em “Em Busca da Liberdade: memória do movimento feminino pela anistia em Sergipe (1975-1979)”.

 

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