Aparte
Opinião – Neoliberalismo, o vírus contra o qual não terá vacina

[*] Rômulo Rodrigues

Há exatos 20 anos eclodiu no Rio Grande do Sul o grande conflito entre o neoliberalismo e a defesa da soberania nacional.

Tomara posse ali como governador do Estado o petista Olívio Dutra, sindicalista bancário, fundador da CUT e do PT e que já fora deputado federal e prefeito de Porto Alegre.

Antes de Olívio, foi governador do Estado o senhor Antônio Britto, jornalista da Globo, porta-voz de Tancredo Neves, neoliberal e entreguista.

No seu primeiro grande desafio político ideológico, Olívio pisou no freio da sanha demolidora da montadora Ford e a máquina de moer gente do Sistema Globo entrou em pleno funcionamento para esmagá-lo.

A resposta do petista foi curta e grossa: “A Ford quer incentivos fiscais que as nossas empresas não têm. O dia que achar que não serve mais, vai embora e não dá nem tchau”.

Governava a Bahia o velho babalorixá e cacique Antônio Carlos Magalhães, neoliberal como Antônio Britto, arqui-inimigo dos petistas e sócio do Sistema Globo, pronto para atacar, principalmente, se o alvo a ser mirado e destruído fosse o Partido dos Trabalhadores.

Não deu outra: ACM deu muito mais do que a Ford queria para instalar a fábrica em Camaçari e os holofotes midiáticos o trataram como sempre gostava de ser: o vice-rei da Baia de Todos os Santos e do Santo Jubiabá.

Até ganhou do programa humorístico Casseta & Planeta edição com pompas e circunstâncias, onde a partir da inauguração da fábrica tudo se transformaria numa grande “Fiesta”.

Sempre atento e antenado, o ex-governador do Paraná, Roberto Requião, que pensava e agia como Olívio, lhe mandou a seguinte mensagem: “Velho amigo Olívio, a Bahia agora entendeu porque você recusou os benefícios absurdos que a Ford queria para se instalar no Rio Grande do Sul. O tempo é senhor da razão”.

O jornalista Igor Nathusch ironizou o desfecho do fechamento da Ford no Brasil: “Quer dizer então que o comunista irresponsável Olívio Dutra manjava (e manja) mais de capitalismo que o reformista privatista Antônio Britto e sua torcida organizada? Que coisa, não?”.

Na última terça-feira, 12, o jornal Zero Hora, da RBS, afiliada da Globo, reconheceu que o ex-governador do PT sempre teve razão em relação à Ford. “Profecia de Olívio sobre Ford se cumpre 20 anos depois”.

Por ironia do destino, o fechamento da fábrica de Camaçari, aceita à época para desmoralizar um governador gaúcho do PT, faz toda sorte de prejuízo cair exatamente no colo de um governador baiano do PT, o Rui Costa.

Nas contradições do nefasto capitalismo, vem à tona uma outra verdade que o neoliberalismo sonha em soterrar: os sindicatos de trabalhadores não morrem nunca e a Ford se vê obrigada a encontrar saída para a crise gerada pela sua ganância, exatamente, com o Sindicato dos Metalúrgicos.

Se a crise da Covid-19 já provou que sem o trabalhador no seu local de trabalho a economia não funciona e não há geração de riqueza, a crise do fechamento da fábrica prova que sem sindicato o trabalhador é um animal indefeso.

O cálculo de fontes oficiais é o de que o Estado da Bahia renunciou a cerca de R$ 20 bilhões em duas décadas em incentivos fiscais que deixaram de ser investidos na economia.

Refrescando as memórias: num dia qualquer, não faz muito tempo, Bolsonaro deixou claro que o projeto é transformar o Brasil num imenso destino sexual para turistas milionários e bilionários do mundo todo virem desfrutar das nossas belezas naturais e uma imensa prostituição.

Como no rastro da Ford devem ir outras fábricas e montadoras multinacionais que já se fartaram na exploração, é só esperar para ver.

Assim era Cuba antes da revolução que acaba de completar 62 anos. Não vai precisar mais nos mandarem para lá - ela está a caminho. A grande compensação para os futuros milhões de deserdados da sorte é ter tirado o PT do governo.

[*] É sindicalista aposentado e militante político.

 

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