Aparte
Opinião - Cloroquina, vacina e propina. A coisa é precisa. Ou isto é só o começo

[*] Romero Venâncio

Primeiro. A coisa é aparentemente grandiosa em seu aparentemente absurdo. Desde o começo, a loucura pela cloroquina não parecia fazer sentido racional.

Era negacionismo demais. Que a “massa bolsonarista”, com suas camisas da CBF, entrasse nessa, era previsível. Afinal, esse “negacionismo” sempre foi cortina de fumaça. Como são a “ideologia de gênero” e todo o pacote da hipocrisia cristã desse bolsonarismo e apaniguados.

Desde que foi divulgado o documentário sobre a cloroquina e suas origens no canal do jornalista Bob Fernandes, foi aparecendo a explicação real: é grana.

Esquema empresarial que envolvia a família Bolsonaro e seus aliados. Dessa divulgação em forma de propaganda exagerada contra toda evidência científica, era para se desconfiar desde o começo.

Paciência. Passou. Mas agora está explicada a aparente loucura fundamentalista. É dinheiro, sim, e em grandes volumes.

Segundo. Veio com mais força. Vacina, corrupção e propina cada vez mais transparente para quem quiser ver.

Mais uma vez: grana volumosa e um esquema preparado bem antes. Caso pensado e bem elaborado, e liderado por um desses que adoram andar de Bíblia na mão e se dizer cristão: Ricardo Barros, famoso desde o Governo Temer, inimigo do SUS e metido a liberal de fachada.

Ok: esse falso debate sobre vacina sempre mereceu desconfiança. Mais uma vez: contra todas as evidências científicas, não se licitava e nem comprava vacinas. Vinha a história de ser da China ou da Rússia. E sempre a mesma desculpa supostamente “negacionista”.

Nada disto. O negócio é negócio, e pronto. Quando os irmãos Miranda abriram essa “caixa de pandora” e descreveram o esquema, o desespero dos senadores bolsonaristas na CPI da Covid quando da presença dos irmãos Miranda foi notório e constrangedor.

Ali já deveríamos saber que tinha coisa, e coisa grave como todo esquema histórico de corrupção nesse Brasil. Propina sobre milhões de vacinas que envolvem bilhões de reais - nem precisa fazer muita conta.

Sabemos onde chegaria e quem ganharia. O Luiz Maklouf Carvalho, no seu clássico “O cadete e capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel”, nos avisou com farta documentação: o negócio de Bolsonaro é dinheiro, venha de onde vier, e virou coisa de família. E quando se junta com esse “centrão”, a coisa ganha ares de profissional.

Esse esquema de corrupção de vacinas tem algo de muito grave e cruel, que talvez (é talvez) não tenha comparação em outros esquemas de corrupção na história política desse Brasil.

Ao tardarem comprá-las e aplicá-las na população em geral, custou milhares de vidas que não morreriam se tivessem licitamente e em tempo comprado as vacinas.

Entendamos: o signo do bolsonarismo é a morte em tudo. E estamos apenas no começo.

Por fim, a CPI do Senado ganha conotação de necessidade nessa quadra histórica. O momento é muito grave para todos os lados. Atentemos. 

[*] É doutor em Filosofia e professor do Departamento de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe.

 

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