Aparte
Opinião - Monte Alegre, 1988-2020: crônica de tragédias eleitorais e falsas esperanças (I)

[*] Jean Marcos da Silva
 
Em Monte Alegre, desde 1988 as eleições são muito concorridas, definidas com vantagem de aproximadamente 5% dos votos válidos para o vencedor quando a disputa esteve centrada em dois candidatos. As exceções foram as eleições de 1992 e de 2004, embora por razões diferentes. 
 
Há 32 anos, Osmar Farias derrotava Getúlio, candidato do então prefeito Manoel Correia Filho - Mané de Dé - e do ex-prefeito Edmilson Pereira - pai da atual prefeita, Nena de Luciano -, que administraram o município por 12 anos seguidos. 
 
Criando vasta rede clientelística e com discurso de defensor dos desvalidos - discurso reforçado pelo fato de os seus três adversários serem fazendeiros -, beneficiado pelo desgaste das longas gestões dos adversários, Osmar venceu com 52,2% dos votos válidos - 2.272 votos -, contra 47,8% de Getúlio - 1.995 votos -, vantagem de apenas 4,4%.
 
A habilidade clientelística de Osmar tornou-o uma grande liderança local, pois permitiu que ele cativasse um núcleo relativamente estável da ordem dos dois mil votos, que sempre o acompanhou nas eleições seguintes. 
 
Não foi suficiente, no entanto, para garantir por si só sua “reeleição” em 1992. Ou melhor, a eleição de seu sobrinho Antônio Fernandes, o Tonhão, que teve 42,2% dos votos válidos - 2.428 votos.
 
Seu adversário Mané de Dé teve 30,3% - 1.739 -, enquanto o candidato de Edmilson, Luciano Lino - genro do ex-prefeito, esposo da atual prefeita Nena -, teve 27,5% - 1.586. Apesar do clientelismo ampliado depois de um mandato na prefeitura, Osmar só saiu vitorioso pela desunião dos seus adversários.
 
Desgastado depois de duas gestões consecutivas, e apesar de ampliar sua base eleitoral com aqueles eventualmente beneficiados durante seus mandatos - com o aumento no número de passagens molhadas beneficiando moradores de povoados, eletrificação rural de alguns povoados etc -, Osmar e seu grupo saem derrotados na eleição de 1996. 
 
Outra razão adicional que talvez tenha contribuído para a derrota foi a realização de um concurso público no mandato de Tonhão, que desalojou servidores contratados, desagradando parte da base do grupo e reduzindo o grau de negociação com essa importante moeda de troca política no município. 
 
Nessa eleição de 1996, o próspero fazendeiro José Correia Neto -o Zé de Dé, irmão do Mané de Dé -, originário do povoado Baixa Verde, na região leste do município, e tendo como vice a atual prefeita Nena, venceu com 52,7% dos votos válidos - 3.402 votos -, enquanto Osmar teve 47,3% - 3.057. Mais uma vez, vitória apertada, de apenas 5,4% de vantagem.
 
A eleição de 2000 foi vencida por Osmar, com 53,3% dos votos válidos - 3.183 -, contra 46,7% de Zé de Dé - 2.785 -, diferença de 6,6%. Mesmo realizando administração que, assim como a de Osmar, fez obras e proveu serviços na zona rural, e apesar de, assim como Tonhão, ter construído uma escola municipal na cidade, Zé de Dé, igualmente, amargou uma não reeleição. 
 
Possíveis explicações para a derrota podem ser a realização de novo concurso público, tendo o efeito já comentado, e também a suposta traição de duas lideranças políticas e empresariais que fizeram parte da gestão de Zé de Dé, mas que em 2000 fizeram esforços para eleger Osmar. 
 
O pleito seguinte é um ponto fora da curva da recente história político eleitoral monte-alegrense. Foi marcado por circunstâncias extraordinárias e pela assunção ao primeiro plano de um personagem que, não obstante realizasse ações assistenciais já há uma década, parecia mais dedicado aos seus negócios privados. Veremos como ocorreu esse início da nova fase dessas estranhas aventuras. 
 
 
[*] É graduado em Ciências Sociais pela UFS e professor efetivo de Sociologia da rede pública estadual de Alagoas.