Aparte
Opinião - Um alerta a padres, bispos e redes sociais do Brasil

[*] Romero Venâncio

Fazem parte da tradição cristã o erro ou o reconhecimento dos limites de todo o ser humano. Daí vem a máxima “errar é humano”. Trabalhar com o erro e o perdão faz parte da história do cristianismo e das teologias cristãs.

Mas sabemos hoje que tudo tem limite na vida social, e com o perdão não é diferente. Porque, como lembrava o poeta Vinicius de Moraes, até o amor se cansa de perdoar. 

A propósito de que começo assim esse brevíssimo texto? Porque acredito que está na hora de o catolicismo no Brasil pensar e repensar a presença de religiosos hoje - padres e bispos, em particular - nas redes sociais.

Criou-se dentro do catolicismo no Brasil uma leitura precipitada do papel e do alcance das redes sociais. A divisa é: “Vamos evangelizar pelas redes sociais”.

Esqueceram de uma coisa importante nesse desespero de “bandeirante cristão virtual”: que as redes sociais não são apenas instrumento de evangelização e que precisamos conhecer mais a fundo essas redes e seus mecanismos e seus perigos.

É público e notório que padres e bispos brasileiros estão fascinados com redes sociais e delirando em seu uso. É triste ver um bispo divulgando notícias falsas e tolas, como se fosse um adolescente descobrindo uma técnica de comunicação.

Não percebeu o prelado que uma rede social não é a cozinha de seu palácio episcopal. Sendo mais preciso no que digo: um prelado católico deve ter feito um curso de teologia com algumas poucas cadeiras de filosofia e menos ainda em ciências humanas em geral.

E se for daqueles cursos fracos e fundamentalistas, o caso da formação se torna mais grave. Essa figura despreparada teoricamente e sem reconhecer seu limite, se mete a falar nas redes sociais como se estivesse em sua missa - onde só ele fala o que quer, na maioria das vezes.

Deve participar desses grupos de “zap do pão caseiro” que se fala de Deus e sua obra sem precisar de fundamento algum e saindo daqui se mete a falar de tudo nas redes. Aqui é onde mora o perigo de “o tiro sair pela culatra” - em alguns casos, literalmente. O que tem de padre falando e defendendo uso de armas impressiona! 

Vamos a mais um fato. Observemos como esses religiosos gostam de falar sobre sexualidade, a vida humano-afetiva das pessoas, opinar sobre homossexualidade ou transexualidade sem ter a mínima formação nesse mundo.

As ciências humanas e da saúde no campo da sexualidade humana avançou em termos de pesquisas e publicações no século XX, o que não ocorreu em vários séculos atrás.

O que esses religiosos sabem disto? Quase nada, mas adoram falar em “ideologia de gênero”, por exemplo, termo que é pura cortina de fumaça. Não existe em nenhuma ciência humana. 

Ao desconhecerem, por ignorância ou má-fé, esses estudos e publicações, o que resta a esses religiosos nas redes sociais é partir para uma posição condenatória em nome de uma “suspeita teologia” que estão longe de conhecer mesmo se dizendo formados nela.

A coisa se torna grave. Não só não evangelizam, como prejudicam a imagem de sua própria igreja. Caem numa posição irresponsável de julgar o que não conhecem. Numa sociedade minimamente democrática, a ninguém deve ser proibido participar de uma rede social ou mais de uma. Ter uma “conta privada” na web, etc. 

O problema de um religioso participar é em nome de que ou a que atividade pastoral vai fortalecer nas redes, postando falas ou textos. Os processos contra padres e bispos começam a surgir, um monte de contestação pública às suas afirmações inconsequentes e protestos contra posições preconceituosas deles. O que sobra para a igreja deles? Má fama. 

Com essas observações, não quero passar a imagem de que não existam canais e atividades sérios e importantes de religiosos em redes sociais. Conheço o trabalho de pessoas ou grupos católicos que têm feito uma bonita e necessária ação nessas redes sociais.

São fontes de apoio, solidariedade, denúncia de injustiças e projetos formativos em teologia dos bons. Só pra não dizer que não falei de flores. Não pode ser pregando ódio e disseminando preconceito numa espécie diabólica de “pedagogia bolsonarista” que um religioso fará seu digno papel numa rede social. Atentemos.

[*] É doutor em Filosofia e professor do Departamento de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe.

 

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