Aparte
Opinião - Shows musicais e o comportamento do público aracajuano: uma nota necessária

[*] Mário Resende

Merece um estudo sociológico o comportamento do público aracajuano perante os shows artísticos, particularmente, os espetáculos musicais. No campo do comportamento, historicamente, esse público é lembrado por ter vaiado Luiz Gonzaga, no Parque de Exposições, de ter jogado uma laranja em Sivuca e latinhas de cerveja em Zé Ramalho, nas festas do Forró Caju.

Essa situação causou preocupação a um saudoso secretário de Cultura de Sergipe, de forma que, antes de qualquer espetáculo no Teatro Tobias Barreto, ele pegava o microfone, dava boas-vindas à plateia e ministrava uma aula rápida de como aquela devia se comportar nos atos. Lembro de gente torcendo o nariz. A aula, naqueles tempos, resultava no básico da civilidade necessária. Funcionava.

Reconhecemos que não existe plateia passiva, muda, estática, nos shows mundiais de rock, pop rock e outros gêneros musicais conhecidos. O público canta junto ao artista e o espetáculo cresce. Mas no Brasil, por vezes, o público engasga o (a) cantante, impõe a próxima música, o coro se eleva acima do artista, uma situação desnecessária. Se no Brasil esse costume é conhecido, em Sergipe, há muito foi santificado. É um dogma que ninguém ousa discutir. Mudar então nem pensar.

Sejam nos teatros ou em campo aberto, tenho pena de quem ousa, nessa terra, assistir a um espetáculo musical sem ser incomodado por uma multidão de vozes estridentes, vindas do público, assoviando, cantando alto, gritando ao artista a próxima música, conversando, rindo, gargalhando, tirando selfie a sós ou em grupo, numa algazarra desrespeitosa aos profissionais que estão no palco e aos pobres integrantes das plateias que estão ali para assistir a um show do artista a ou b, mas nunca, nunca mesmo, ao miado obtuso vindo do vizinho do lado. Haja paciência.

Essa plateia má educada e gritante dos espetáculos alheios desconhece que há um trabalho hercúleo para que a equipe e o artista entre em cena. Horas de ensaios para construir um repertório e de trabalho de uma equipe formada por diretores, ensaiadores, figurinistas, costureiras, artesãos, equipe de social média, cinegrafistas, fotógrafos, cenógrafos, iluminadores, sonoplasta, equipe de apoio, gráfica, músicos, dentre outros, correm um imenso risco do trabalho ser diminuído diante de um público ávido para enviar a selfie da hora, entoar a letra, gritar a próxima música, independentemente do repertório ensaiado, conversar e falar alto, o tempo inteiro do espetáculo, como se estivesse no banheiro das suas casas.

A disputa para mostrar ao vizinho do lado, ou ao amigo que se manda a selfie, de que sabe a letra inteira da música cantada pelo artista, rege a orquestra da plateia.

Próximo ao final de cada espetáculo, uma multidão furiosa corre, empurra, recebe e dá cotoveladas e se posta animalescamente diante do palco para levar o troféu da noite: a bendita selfie com a presença do artista.

Em tempos pandêmicos, a precaução necessária, toma a volatilidade do éter. Aos estudiosos dos costumes, um ótimo objeto de estudo. Minha impaciência advoga que na ausência da catarse artística, sobeja a essa gente uma vulgaridade oca. Melhorem, por Serigy!

[*] É professor da Universidade Federal de Sergipe.

 

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