Aparte
Opinião - Marcelo Hercos Lyrio, um guerreiro a menos

[*] Isaque Cangussu 

Há mais de 15 anos eu conhecia um paulista, radicado em Minas Gerais, com passagem por Brasília, que chegava à região Nordeste do Brasil pelo portão de Sergipe.

Local de encontro: Academia da Polícia Civil do Estado de Sergipe, onde faríamos o Curso de Formação de Delegados de Polícia, após aprovação nas fases anteriores do respectivo concurso público. 

Marcelo - com sobrenome incomum, forte e leve, ao mesmo tempo - Hercos Lyrio - era o nome daquele colega que eu teria a sorte e a alegria de, dentre outros, conhecer e me tornar amigo.

Poucos meses depois, já estávamos nomeados, empossados e compondo a carreira de delegado de Polícia do Estado de Sergipe.

Desde os primeiros dias de exercício, Marcelo Hercos Lyrio já revelava uma especial vocação para a atividade policial, destacando-se nas primeiras lotações, sendo alçado à posição de delegado Regional de circunscrições importantes, como Lagarto e Itabaiana. Futuramente, ganharia a chance de trabalhar na capital. 

Inquieto, Marcelo Hercos buscava se aperfeiçoar e elegeu como foco a área tático-operacional. Fez diversos cursos nesse segmento, no Brasil e no exterior, valendo destacar o do Batalhão de Operações Especiais/Bope do Rio de Janeiro, e outro realizado em Israel.

Generoso, não guardava para si os aprendizados e se colocava à disposição para transmitir a todos os conhecimentos adquiridos, sendo instrutor em cursos para os colegas policiais sergipanos. 

No dia 21 de setembro de 2021, Marcelo se deparou com uma situação de flagrante delito e, mesmo em horário de folga, não hesitou em agir, dando voz de prisão a três criminosos que aplicavam golpes em comerciantes, passando notas falsas de dinheiro.

Um dos flagrados, de forma oportunista, desobedeceu ao comando e esboçou uma tentativa de fuga e/ou reação ilegítima. Marcelo agiu para frustrar a ação e acabou sendo covardemente arrastado por um veículo e atingido com três disparos de sua própria arma, que ficou ao alcance do bandido após o seu desequilíbrio e queda. 

É fato que não existe situação que justifique disparar contra um homem da lei que apenas cumpria o seu dever, sem cometer qualquer excesso, já desarmado e caído ao chão.

Mas nem se trata de cogitar justificativa, e sim lógica racional. Se a intenção era a fuga do local do crime, o que explica os disparos contra a autoridade, na situação em que Marcelo se encontrava, senão o puro exercício da malvadeza? 

Depois de 26 dias resistindo aos graves ferimentos e procedimentos médicos sensíveis, Marcelo deu o seu último suspiro e se despediu deste mundo na madrugada do domingo, 17, tendo frustrados projetos e sonhos pessoais e profissionais dos mais elaborados aos mais despretensiosos.

Um exemplo dos primeiros era a oportunidade de ser pai. Esse direito sagrado lhe foi tolhido. Difícil haver perdão para isso. Exemplo dos desejos mais simples que ficaram no caminho era o de ver seu time de coração, o Atlético Mineiro, sagrar-se campeão brasileiro.

Atleticano ferrenho e apaixonado pelo futebol - inclusive, bom de bola -, Marcelo nunca esteve tão perto de testemunhar esse feito. Afinal, a primeira e única vez que o Galo ganhou esse título foi sete anos antes do nascimento dele.

E neste ano o Atlético desponta como favorito à conquista do título, liderando com boa vantagem a competição. São dessas coisas grandiosas, como ser pai, e simples, como torcer por um clube de futebol, que é feita a vida.

Vida que lhe foi subtraída imediatamente por um homem e de forma mediata por uma política e uma cultura nacionais de encarar policiais como sujeitos de inúmeras obrigações e responsabilidades, sem a devida correspondência por direitos e proteção devida.

Na maioria das vezes, em situações de abordagens, os policiais se veem equilibrando-se em uma corda bamba, em que à esquerda está a possibilidade da fritura pública, dizimação da reputação moral e social, processo e prisão e, à direita, a extinção da própria existência. 

Reflexão e revisão dessa perspectiva são medidas urgentes para que se demonstre que as vidas dos policiais também importam. Enquanto isso não acontece, é mais um “vá com Deus, guerreiro” que pronunciamos.

[*] É delegado da Polícia Judiciária do Estado de Sergipe e presidente da Adepol/SE - Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Sergipe.
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