Aparte
Opinião - Retrocesso na abertura do São João de Areia Branca

[*] José Paulino da Silva

Para meus leitores de fora do Estado de Sergipe, informo que Areia Branca é a sede de um município situado a 36 quilômetros de Aracaju. É uma cidade serrana, de clima agradável e de povo trabalhador. Um município que produz boa parte dos produtos hortifrutigranjeiros consumidos nos mercados sergipanos e de Estados vizinhos.

Li uma notícia em um portal online sobre os gastos de R$ 1,5 milhão que o prefeito daquela cidade está tendo para contratar seis bandas de forró para a abertura do São João que ocorrerá nos próximos dias 30 e 31 de maio deste ano. Isso é um exemplo de esbanjamento do dinheiro público. Uma ofensa ao povo trabalhador daquele município e ao cidadão sergipano que paga seus impostos em dia.

O secretário de Comunicação no próprio Diário Oficial explica o porquê destes altos cachês a apenas seis atrações que vão de R$ 30 mil a R$ 550 mil. Diz que são artistas e bandas consolidadas no mercado nacional e que os cachês estão de acordo com a política de preço cobrada por eles.

Uma explicação que não se justifica, tamanha malversação do dinheiro público. Não basta publicar a fonte – rubrica - de onde vem o recurso. Transparência nos gastos é muito importante, mas não é tudo. A probidade administrativa e senso ético devem acompanhar as decisões de qualquer gestor público.

Não conheço as motivações que levaram o prefeito e os vereadores de Areia Branca a decidir por uma programação totalmente alheia à tradição cultural do ciclo junino daquele município. Mas é uma decisão que certamente ajudará a prejudicar uma conquista que aquela comunidade vinha ocupando no cenário dos festejos juninos do Nordeste.

A cidade de Areia Branca, num passado recente, tornou-se  um importante polo dos festejos juninos, numa sadia concorrência com o São João de Estância e o da capital sergipana. Só do bairro 13 de Julho, onde moro, teve noite de sair de Aracaju diversos ônibus lotados para as festas juninas daquela cidade.

A abertura da programação deste ano, além de ser uma ostentação de gastos com cachês pagos a bandas e artistas que nada têm a ver com a musicalidade do ciclo junino, é um descaso frontal ao forró enquanto bem e patrimônio imaterial da cultura popular sergipana e nordestina.

Por que o prefeito de Areia Branca não honrou no nome forró pé no chão a memória de Joza, o Vaqueiro do Sertão, que ali morava, abrindo a programação junina com artistas da região? Podia ter contratado, por exemplo, Jozeane de Joza, Amorosa, Edvaldo de Carira, Cobra Verde, o sanfoneiro Tatua.

Quem sabe como seria lindo esses artistas sergipanos homenageando e fazendo releituras das belas músicas de Joza! Uma programação que poderia acrescentar um ou dois nomes do forró nacional, como Flávio José, Alcymar Monteiro, o sanfoneiro Genaro.

O mês de junho em todo o Nordeste sempre foi um período especial para apresentações musicais de artistas com seus trios e bandas que fazem do forró sua arte e um complemento ao seu ganha pão. A apropriação dos festejos juninos por parte de outros gêneros musicais - arrocha, piseiro, sertanejo, por exemplo -, como tem acontecido, é responsabilidade de prefeitos e empresários que os contratam.

Estes artistas e bandas de ritmos exóticos já têm seu público e espaços bem divulgados pela mídia o ano todo. Além de contar com um forte aparato midiático, a maioria das rádios os toca e toca muito. Infelizmente, essa lógica se repete em vários municípios do interior.

O gestor coloca o show de artistas que dão mais audiência e por causa disso mais votos, mas esquece que se colocar mais artistas locais o povo também vai conhecer melhor sua própria cultura. Quem conhece sua arte, se identifica e se fortalece. O forró com seus artistas compositores intérpretes e instrumentistas é uma riqueza cultural do povo nordestino do qual fazemos parte.

Não podemos permitir que este bem cultural seja depredado. A cada São João, os prefeitos desprezam nossos forrozeiros, não os contratando para as programações juninas, e quando o fazem, pagam com atraso cachês abaixo do que eles merecem. Esta prática injusta só se combate fazendo justiça. Havendo maior fiscalização por parte do Ministério Público, de outros órgãos fiscalizadores da sociedade e das entidades dos próprios forrozeiros.

Como nos ensina a mensagem de um pequeno poema intitulado “No caminho com Maiakóvski”, não fiquemos com medo, nem em silêncio, se na calada da noite, os gestores políticos que nós mesmos elegemos entrarem no terreiro de nossas casas, matarem nossos cães, pisarem os jardins de nossa vida e roubarem nossas flores. Falemos, gritemos enquanto é tempo, se não eles roubarão nossas vozes para sempre!

[*] É professor aposentado da UFS e pesquisador.

 

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