
Elayne Messias Passos: fechando a trilogia sobre importância dos becos na paisagem das cidades como Aracaju e Salvador
[*] Elayne Messias Passos
Em Salvador, os becos também são paisagens densas de sentido. São lugares onde a cidade transforma trajetórias em narrativas. Na Ilha de Maré, por exemplo, narrativas orais das marisqueiras dialogam com as memórias inscritas nos becos, tornando-os “becos da memória”, como a literatura recente explora.
Distantes das avenidas largas e dos circuitos turísticos do Pelourinho, esses becos encerram histórias de trabalho, redes comunitárias e saberes ancestrais. A vida que pulsa nesses caminhos refuta a noção de que beco é espaço de esquecimento. Ao contrário, eles são continuação da paisagem sensível da cidade, são palcos cotidianos de encontros, trocas e memórias.
Quando caminhamos por essas vielas, descobrimos que se trata de um tipo de cartografia humana. Cada canto, cada muro grafitado, cada escadaria narra um capítulo da vida urbana. A paisagem da cidade de Salvador, então, não se limita ao horizonte monumental: ela se faz, sobretudo, nas lacunas, nos trajetos lentos e nos becos que guardam vozes que insistem em permanecer.
Além de seus grandes marcos arquitetônicos, como igrejas barrocas e largos históricos, Salvador também construiu sua identidade por meio de pequenas passagens urbanas que conectam bairros, memórias e modos de vida. Os becos espalhados pela cidade revelam uma dimensão menos monumental, porém profundamente significativa da paisagem urbana.
Nessas passagens estreitas, que atravessam encostas, ligam ruas e encurtam caminhos, a vida cotidiana se organiza em ritmos próprios. São lugares onde o trânsito de moradores, trabalhadores e visitantes transforma simples trajetos em experiências de convivência, reforçando a ideia de que a cidade também se faz nos espaços discretos e nas rotas do dia a dia.
Historicamente, os becos de Salvador funcionaram como importantes eixos de circulação e sociabilidade. Em bairros antigos, especialmente no centro histórico e em áreas populares, essas vielas serviram como atalhos entre mercados, portos, igrejas e residências.
Registros jornalísticos e reportagens sobre o cotidiano urbano frequentemente destacam que esses espaços foram, ao longo do tempo, pontos de encontro da vida popular, onde se cruzavam vendedores ambulantes, trabalhadores e moradores.
Assim, os becos contribuíram para estruturar redes informais de convivência e trabalho, revelando uma dimensão social da cidade que muitas vezes escapa às narrativas centradas apenas nos grandes espaços públicos.
Ao mesmo tempo, os becos guardam marcas materiais e simbólicas da memória urbana. Muros grafitados, escadarias antigas, pequenos comércios e casas alinhadas ao longo dessas passagens compõem uma paisagem que testemunha transformações históricas da cidade.
Nesse sentido, os becos de Salvador podem ser compreendidos como parte de uma cartografia afetiva da cidade. Eles revelam trajetórias silenciosas que conectam diferentes camadas da vida urbana, desde as práticas de trabalho até as formas de sociabilidade que estruturam o cotidiano dos moradores.
Mais do que simples passagens, essas vielas constituem espaços de memória coletiva, onde histórias individuais e comunitárias se entrelaçam. Assim, compreender a paisagem urbana de Salvador exige olhar também para esses caminhos estreitos, pois é neles que se preservam vozes, experiências e narrativas que continuam a dar sentido à cidade.
[*] É licenciada em História pela Universidade Federal de Sergipe, doutora em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia e assessora do Ministério da Educação









