Aparte
“Abuso do Poder Religioso nas Eleições”, o livro do promotor Peterson Almeida Barbosa

Peterson Almeida: evangélicos declarados e apoiados são quase 1/3 das Casas Legislativas

No próximo dia 29, quinta-feira da semana que vem, das 17h30min às 20h, acontecerá o lançamento do livro “Abuso do Poder Religioso nas Eleições – A Atuação Política das Igrejas Evangélicas” (Lumen Yuris)", do promotor de Justiça Eleitoral desde 1997 Peterson Almeida Barbosa, mestre em Direito e especialista em Direito Eleitoral. o Oevento ocorrerá no Museus da Gente Sergipana. 

Trata-se de obra inédita no Brasil acerca do tema, já tendo sido citada em julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral, sendo o autor entrevistado por veículos importantes da mídia nacional como a Folha de S. Paulo e o site UOL.

Numa abordagem atual, envolvente, instigante e que a todos interessa sobre o palpitante tema, ele nos fornece estas breves linhas para falar de sua obra e convidar a sociedade para o lançamento. A partir daqui, fala o promotor Peterson Almeida Barbosa.

“O abuso do poder religioso nas eleições ocorre quando um líder religioso tenta, conscientemente, incutir aos crentes, valendo-se de seu falar divino, e sob o argumento de manter uma conexão com o transcendental, a suposta vontade de Deus, da qual se julga porta-voz, proferindo mediante um embriaguez litúrgica ameaças de castigos ultraterrenos àqueles que desobedecerem a Sua vontade, que, mormente, é a da igreja que representam.

O foco de meu livro não são os evangélicos, já que não são somente eles que abusam. No entanto, em minhas pesquisas, encontrei 68 julgados que tratam do abuso do poder religioso e, em todos, apenas pastores evangélicos, especialmente neopentecostais, figuram como réus. Não existe a “cristofobia” sempre alegada em suas defesas.

Entendo que os fiéis são vulneráveis econômica e intelectualmente, já que o público das igrejas evangélicas é, em sua imensa maioria, mulheres, negras, pobres e moradoras da periferia, com escolaridade fundamental e renda de até dois salários mínimos.

Estas igrejas chegam aonde o Estado some. Nas confissões religiosas encontram assistência, pertencimento. Fragilizados, inclusive emocionalmente, vão aos templos em busca de alento, e, é neste momento, que tem suas consciências ultrajadas com pedidos de votos. Em números estatísticos, em menos de 20 anos o Brasil se tornará o maior país evangélico do mundo.

Entendo que interessa aos políticos esta associação com os pastores, há uma instrumentalização recíproca, um sistema de ganhos mútuos. Os evangélicos são, estatisticamente, os mais engajados, seja pela frequência aos templos, seja por serem os que mais ofertam dízimos, etc..

Estão presentes em todos os rincões deste país, tem enorme poderio financeiro e midiático. Tem um índice de confiança em seus líderes religiosos da ordem de 73%, contra apenas 5% nos partidos políticos. Já da parte dos religiosos, é importante entrarem na política para que possam garantir seus interesses, como a manutenção da imunidade tributária, a ocupação de cargos administrativos, e as pautas conservadoras.

Não se pode deixar de destacar o exponencial crescimento dos evangélicos na política. No início dos anos 90 eram apenas 12 os representantes no Parlamento, hoje a chamada Frente Parlamentar Evangélica é uma das mais fortes do Congresso Nacional, comportando, entre evangélicos declarados e apoiados quase 1/3 daquelas Casas Legislativas.

O nome pastor é o mais registrado nas candidaturas. Quem detém 35% das vozes de uma população, é uma verdadeira holding que engloba bancos, financeiras, construturas, corretoras, gráficas, incontáveis imóveis, além do poder midiático (Rede Record, 25% das emissoras de rádio - o que tanto interessa aos políticos), é natural queira também a conquista do poder político.

Há como resolver o problema, mas não vou dar spoiler de meu livro. A criação da figura do abuso do poder religioso é imprescindível para que se dê, àqueles que fiscalizam as eleições, instrumentos de combate a esta prática que é de todos conhecida por ser o fenômeno sociológico presente em nossas vidas.

Em não sendo possível, já que fácil não é, a perda da imunidade tributária caso ingressem na política (como ocorre nos EUA) ou a desincompatibilização das atividades eclesiais para aqueles que concorram a mandatos eletivos são alternativas que proponho em minha obra, o que não dá pra tolerar mais é que o Congresso vire “puxadinho das igrejas”, que púlpitos virem palanques e que continue a haver a drenagem informal de recursos daquelas para os partidos políticos”.

 

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