Aparte
Opinião - Complexo de vira lata eleitoral

[*] Rômulo Rodrigues  

O complexo de vira lata, aquele tão exaltado por Nelson Rodrigues, é real e se mantém diuturnamente entre brasileiros e brasileiras, sempre sentenciando que o Brasil é incapaz de se mostrar melhor que qualquer país do primeiro mundo, principalmente os Estados Unidos, onde a doença leva a uma submissão total.

Um bom momento para enfocar o tema é justamente agora, na eleição presidencial de lá. Como sou de um tempo em que se aprendia que toda definição depende de um comparativo, vamos ao que é real: a história de quem nos criou, influenciou e nos dopou com suas mazelas, o império romano.

Spartacus, escravo que se tornou gladiador, meio que por acaso, lidera a revolta contra Roma, o que ocasionou que o senado romano desse todo poder ao banqueiro general Crasso para capturá-lo e aniquilar a rebelião que começou no Ludus da casa de Batiastu e se espalhou por toda a Cápua mostrando o quanto ainda somos cópia daquela sociedade podre.

Com a chegada do pretor Publius Varinius para assumir a casa, com a morte de Quintus, muitos escravos se negaram a seguir Spartacus e Crixus, na busca da liberdade, acreditando que a mudança de opressor poderia trazer melhorias para suas vidas.

Aquelas expectativas sentidas na Vila de Cápua não são diferentes das que vemos hoje no Brasil, com relação a apuração da eleição americana, onde fica encoberto o quanto aquele processo é frágil e atrasado em relação ao nosso, que o complexo de vira lata funciona como uma viseira impedindo que muitos vejam o óbvio. Somos doutrinados a achar que tudo que tem lá é avançado e tudo que tem aqui é atrasado.

Se ocorresse o inverso, eleição eletrônica nos EUA, apuração total em quatro horas, e eleição no Brasil com um mês de votação e 15 dias de apuração, os vira latas gritariam em uníssono: isso é Brasil.

Decerto que haverá uma mudança substancial se Biden vencer a eleição, como parece que venceu. Porém, a mudança será só nas capatazias, nos professores, mas os métodos de chicoteamento e os formatos dos chicotes não vão mudar e estarão sempre à disposição para bater nos lombos dos de baixo.

No discorrer da história fica claro que os códigos moral e de ética dos Gladiadores são os mais nobres e guardam respeitos mútuos. Já na casa o que reina é o triângulo sedimentado por sangue, sexo e vinho. A partir de um ponto da história quem assume a centralidade da narrativa é a traição como ferramenta essencial para  conquista do poder.

Bem atual o que vem a público é o livro de Michel Temer – ou seria Quintus Batiastu – que conta como glória pessoal e intransferível sua astúcia no golpe contra Dilma? Teria usado sua Marcela como se fora sua Lucrécia a promover convescotes para alcançar a glória de ser presidente? Não deixa claro, mas, no circo dos horrores da sordidez, tudo é possível quando a alma é diminuta.

Certo também é que Roma se empenhou ao extremo como ponto de honra para derrotar um homem, uma lenda - alguma aparência com Lula, que faz tremer uma República de traidores?

General poderoso como o banqueiro Crasso, enviado pelo Senado – o Estado romano –, foi de fato vitorioso como Villas Boas, Moro, Dallagnol e tantos outros; ou serão reconhecidos por terem cometido um grande erro?

Afinal, o que fica na história: que juiz condenou Mandela, que juiz condenou Ghandi, quem condenou Tiradentes, Joana D’arc e Cristo? Não, esses não são heróis, são apenas canalhas, sem complexo de vira lata. São simplesmente, vira latas.

[*] É sindicalista aposentado e militante político.

 

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