Aparte
Opinião - No caso Constantino, quantos produziram notícias e ouviram o contraditório?

[*] Leandro Pereira Gomes

Para quem perdeu o fio da meada, aí vai um extrato do ocorrido: economista por formação, comentarista político e liberal-bolsonarista, Rodrigo Constantino ganhou holofotes do cancelamento e de seguidas demissões nos últimos dias. Um movimento encadeado após uma fala absurda que fez numa live.

O contexto dessa fala, que vem em meio à repercussão do julgamento por um crime sexual cometido contra a influenciadora Mariana Ferrer, é o de se uma mulher seria capaz de consentir com sexo estando embriagada - Rodrigo Constantino jura que apesar do momento, o da sua fala foi um exemplo genérico e que não citou nomes.

Constantino usou como exemplo a própria filha: se ela estivesse numa festa bebendo e ficando com dois caras, e “dormisse por lá”, ele não aceitaria ela dizer que foi estuprada. Nesses termos, tampouco denunciaria o potencial abusador, e ainda deixaria ela de castigo por algum motivo que escapa a lógica.

Diante disso, a internet ficou em polvorosa: o nome do novo monstro moral foi parar em tudo que é site, ganhou destaque nas mídias sociais, recebeu uma explosão de críticas, mas também apoio daqueles ideologicamente alinhados com ele.

A péssima repercussão reverberou em termos de mercado e primeiro fez Rodrigo perder o trabalho que tinha na Rádio Jovem Pan. O direitista fez na mesma tarde uma segunda live na qual não se desculpou, mas disse ter sido vítima de perseguição.

Constantino reconheceu que no trecho aqui descrito “abriu margem” para mais de uma interpretação possível, fez uma breve mea culpa somente por isso e em seguida atacou “a esquerda” na figura do que entende por um movimento feminista radical, desafetos e ex-amigos.

Agora sabemos que ele perdeu vários outros espaços de atuação, como no Grupo Record, em jornais e em rádios sulistas. Pontuado isso, vimos várias notícias saírem sobre o caso, mas não encontramos um Rodrigo Constantino dando a sua versão dos fatos, nem o que disse nas demais lives sendo abordado em textos de notícias sobre os mesmos, e daí o porquê do título aqui escolhido.

Sim, o contraditório nos meios de mídia não pode ser o mais novo cancelado em termos de prática profissional. No jornalismo, permitimos que até mesmo o acusado de um crime bárbaro, supostamente culpado, fale. Então por que seria diferente em matéria com qualquer um, seja de moral duvidosa ou algo similar?

Como jornalistas, a questão central é como escolhemos defender e fortalecer um jornalismo diariamente atacado por tantos, se usamos nossas redes com a finalidade de despacharmos nossas indignações anulando desafetos.

Acredito que Rodrigo Constantino cavou as próprias demissões, e que elas não necessitem maiores esclarecimentos, mas ao mesmo tempo defendo uma prerrogativa única: não devemos dar margens para justiçamentos com o que produzimos - mesmo no caso de loucos raivosos, devemos seguir buscando o contraditório para noticiarmos.

Para cada vez que agimos por impulso e emitimos valor contra algo ou alguém sem nos demorarmos, mais munição damos para negacionistas, conspiracionistas e toda sorte de alienados e radicais. Isso é feito em detrimento do próprio jornalismo, servindo em prol de outros interesses que não o profissional.

Afinal, se o entendimento do direito, tão necessário em respeito às coberturas do interesse público e questões de direitos humanos, precisa ser algo defensável dentro da sua própria ética e técnica profissional, por que não o que produzimos na esfera da comunicação social?

[*] É jornalista profissional, graduado pela UFS, e colaborador efetivo do Portal JLPolítica.

 

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