Aparte
Opinião - Da nova política, ou “por trás de todo paladino da moral mora um canalha”

[*] Fábio Salviano

Mais uma eleição e, assim como tantas outras, as conversas sobre política vão preenchendo variados espaços das cidades. Conversa-se nas casas das pessoas, nos elevadores dos prédios, nas ruas, nas fábricas e nos escritórios.

Nas ruas, observa-se boa movimentação dos inúmeros candidatos, sejam majoritários ou proporcionais. Há panfletagens, bandeiraços, carreatas, carros são adesivados, entre outras tantas coisas de uma campanha. Tudo isso é parte do processo político/eleitoral.

Com algumas nuances aqui e ali, a tradição ocidental forjou processos eleitorais relativamente parecidos. Seja na charmosa e bem cuidada Aracaju, seja na superdesenvolvida Alemanha, os partidos lançam nomes que, usando as mais variadas teses, buscam atingir corações e mentes das pessoas. E o povo dá a palavra final sobre quem é ou não eleito.

Acerca desses processos, inúmeros teóricos trabalharam ou trabalham, sejam da ciência política, direito, sociologia e/ou filosofia - nesse caso, destaco a contribuição da filosofa alemã Hannah Arendt, que em obra organizada postumamente por Ursula Ludz, chama a atenção para o debate sobre o que é política.

Para Hannah Arendt, a política baseia-se na pluralidade humana. Homens e mulheres são produto humano mundano, fruto da natureza humana. A política jamais atingiria a mesma profundidade em todos os humanos.

A falta de profundidade de pensamento não revela outra coisa senão a própria ausência de profundidade, na qual a política está ancorada. Portanto, o que para uns poderia ser algo novo, para outros pode não ser.

Para a mesma autora, a política não pertence (não está) na essência dos homens. A política surge no entre-os-homens. Portanto, fora dos homens. A política organiza, de antemão, as diversidades absolutas de acordo com uma igualdade relativa e em contrapartida às diferenças relativas.

Então o que é o novo? O que é essa tão falada nova política que aparece tanto nos discursos atuais? Hannah observou a possibilidade do surgimento de uma nova política a partir da perspectiva aristotélica que do surgimento de cada novo homem, novas possibilidades surgiam e, com a percepção dessas novas possibilidades, novas perspectivas sempre estariam aparecendo, trazendo outras tantas possibilidades, mas não necessariamente boas possibilidades.

Ela deixava claro que vivemos em realidades contaminadas de novas e velhas possibilidades juntas, construindo as mais diversas sínteses. Portanto, o novo poderia ser qualquer coisa, usando a própria Hannah, até o mal mais radical. Ou o Terceiro Reich não foi uma nova política implementada na Alemanha?

A nova política seria a boa política? Talvez, então, ela não seja tão nova assim, por que existem exemplos de mulheres e homens realizando-a pelo país afora. Esse é o caso de Aracaju, onde o prefeito Edvaldo Nogueira esqueceu as colorações partidárias e buscou incansavelmente resolver os problemas da cidade e dos seus cidadãos.

Edvaldo foi muito além de qualquer retórica e/forma. Ele buscou ampliar as matrículas na rede municipal, melhorar o atendimento da rede de atenção básica de saúde, melhorar a segurança dos que usam o transporte coletivo, ou proteção às mulheres vítimas de violência doméstica, ampliar o calçamento e a rede de esgoto dos bairros menos favorecidos, agir fortemente contra aquela que sem dúvida era a pior chaga da cidade, a ocupação das Mangabeiras, e no momento da maior crise sanitária de nossa história, ampliou consideravelmente vagas de atendimento para vencer a Covid-19. 

Por isso, não basta bradar aos quatro cantos que se é novo ou velho, honesto ou desonesto. Advogar-se isso ou aquilo, tão somente se valendo de estratégias discursivas ou de uma forma talhada minuciosamente pelos marqueteiros, é tarefa deveras fácil. Não obstante, é igualmente fácil descontruir esse tipo de discurso.

A história está aí para mostrar os exemplos daqueles que se mostraram valentões na forma e vazios no conteúdo - recordemos dos discursos moralistas de Collor, Witzel e tantos outros que se arvoraram a autocoroar-se como os mais puros políticos do mundo. No caso brasileiro, um anjo torto nos alertou que “por trás de todo paladino da moral mora um canalha”.

[*] É sociólogo.