Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 42 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica.

Opinião - Altares, palanques e a traição moderna
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Emanuel Rocha: quando púlpitos se confundem com palanques e a fé vira instrumento

[*] Emanuel Rocha

Durante séculos, Judas Iscariotes foi apontado como o maior símbolo de traição da história. Seu nome virou sinônimo de deslealdade, sua imagem foi condenada sem direito à defesa, e sua história foi reduzida a um único ato. Mas, quando olhamos com mais profundidade, surge uma pergunta incômoda: será que Judas foi mesmo o maior traidor ou apenas o mais lembrado?

Judas errou, isso é inegável. Entregou Jesus, tomou uma decisão precipitada, acreditou que podia forçar um desfecho que não compreendia. Mas seu erro nasceu de uma visão equivocada, não de uma maldade planejada. Ele esperava um messias político, um líder que enfrentasse o poder romano, e tentou apressar esse momento. Quando percebeu que estava completamente errado, não celebrou, não lucrou, não se escondeu atrás de discursos. Foi consumido pelo remorso, um remorso que não buscou justificativa, apenas peso.

É nesse ponto que o passado encontra o presente, porque hoje o que se vê em muitos espaços religiosos não é mais ingenuidade, mas, em muitos casos, projeto. Há líderes que compreendem perfeitamente o alcance de sua influência e, ainda assim, utilizam a fé como instrumento de poder, controle e manutenção de privilégios. Certos líderes religiosos transformam a fé em um teatro covarde de fingimento. São, muitas vezes, como sepulcros caiados, belos por fora, mas vazios por dentro. A fé deixa de ser experiência espiritual e passa a ser estrutura de arrecadação, onde a ingenuidade de muitos se converte em sustentação financeira de poucos e o discurso religioso passa a ser ferramenta de domínio.

Essa distorção não se limita ao templo. Ela avança com força sobre a política, onde parte desses mesmos agentes utiliza a fé como capital eleitoral e a política como escudo de proteção. O que deveria ser responsabilidade pública se transforma em mecanismo de blindagem, garantindo influência, poder e permanência. Assim, a fronteira entre púlpito e palanque se dissolve, e o sagrado passa a ser instrumentalizado como estratégia de sobrevivência política e institucional.

Nesse cenário, o discurso religioso deixa de formar consciências e passa a organizar conveniências. Em alguns casos, isso ultrapassa o campo simbólico e se torna prática visível, quando espaços de culto passam a normalizar alianças com projetos de poder, discursos de confronto e até a legitimação de uma cultura de violência e armamento. O que deveria ser serviço se converte em domínio e o que deveria ser cuidado coletivo se transforma em projeto individual de poder.

Esquece-se, assim, de algo essencial, e aqui reside o ponto mais profundo da inversão: a fé não é estrutura, não é palco e não é instrumento de poder. A verdadeira experiência espiritual não depende de templos, nem de paredes, nem de instituições. Ela nasce na interioridade humana, no silêncio da consciência, no encontro direto entre o ser humano e o sagrado. O verdadeiro templo não é de pedra, é o coração humano, onde não há marketing, não há espetáculo e não há negociação.

Ainda assim, é preciso afirmar com equilíbrio que nem todos seguem esse caminho. Existem líderes religiosos e representantes públicos que permanecem fiéis à essência da mensagem que professam, que não utilizam a fé como instrumento de vantagem e que resistem, muitas vezes em silêncio, à lógica da exploração e do poder. Essas exceções não anulam o problema, mas revelam que ele não é absoluto e que ainda há integridade possível.

Mas é justamente por existirem essas exceções que o contraste se torna mais evidente e mais duro de sustentar. Porque o que marca a diferença é a consciência. Judas erra sem compreender plenamente o alcance de seu gesto, preso a uma expectativa equivocada de libertação. Já muitos dos que hoje se apresentam como guardiões da fé conhecem exatamente o impacto de suas escolhas e, ainda assim, persistem nelas. Não há ingenuidade, há cálculo. Não há desespero, há continuidade.

Enquanto Judas não utilizou o nome de Jesus para enriquecer, muitos hoje constroem estruturas inteiras de poder e influência a partir dele. Enquanto Judas se afundou no remorso ao perceber seu erro, muitos permanecem confortáveis dentro de sistemas que exploram a fé alheia. O erro de um foi marcado pela incompreensão, a prática de outros é sustentada pela intenção.

Talvez Judas nunca tenha sido o maior símbolo de traição. Sua história carrega falha, mas também humanidade. Já a traição que se revela quando a fé é convertida em instrumento de lucro, controle e poder consciente revela algo mais profundo e mais perturbador, porque não nasce da dúvida, mas da escolha.

No fim, Judas deixa de ser apenas condenação e passa a ser espelho. Um lembrete de que errar por não compreender ainda é humano, mas explorar, manipular e se beneficiar da fé alheia é decisão.

E talvez, em algum lugar entre o remorso de Judas e o vazio de tantos altares transformados em palanques, ainda exista uma verdade que insiste em sobreviver. Uma verdade que não se vende, que não se negocia, que não se dobra ao poder. Uma verdade que caminha mansa, quase invisível, mas que resiste no coração dos que ainda acreditam que a fé não foi feita para enriquecer homens, mas para transformar almas.

[*] Emanuel Rocha é historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico.

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