Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 38 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica. Colaboração Tanuza Oliveira.

Opinião - Poética reunida de Iara Vieira: tão rara quanto cristalina
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Ronaldson Sousa: apanhado valioso que mostra a fisionomia poética de Iara por inteiro

[*] Ronaldson Sousa

A literatura brasileira ainda carece de publicações que resgatem obras de valor, mesmo quando nomes já consagrados têm suas publicações esgotadas há décadas ou aguardando uma data festiva para ser reavivada.

A literatura produzida nos Estados, não menos valorosa e que não alcança grandes editoras, entusiasmos de marketing ou boa vontade da política cultural, está fadada ao esquecimento.

Pergunto: quem está republicando a obra de Santo Souza, Hunald de Alencar, Gizelda Morais, Carmelita Pinto Fontes ou Alberto Carvalho? Alina Paim ou Amando Fontes?

Em 2016 uma trilogia de Núbia Marques foi relançada pela Secretaria de Estado da Cultura e o Instituto Banese. Um alento. Mas as ações dessa natureza carecem de continuidade e determinação.

De encontro a isso, pequenas editoras, de sonhadores abnegados pela causa da arte literária, cumprem sua missão a toda sorte de dificuldades, mas o resultado dessa saga quixotesca sempre traz o bálsamo da nobreza e da paz da missão cumprida.

Neste ano de 2021 uma publicação traz o mérito de agrupar a obra poética da sergipana Iara Vieira, através da editora baiana Mondrongo e com a união de forças de um grupo sergipano de apaixonados pela poesia.

A coordenação editorial dividida entre este autor, Maruze Reis, Carol Barcellos, Taylane Cruz e com o auxílio visual luxuoso de Hortência Barreto que executou a capa, foi o suporte necessário para materializar a ideia que já está em circulação.

Capa de Poesia Completa de Iara Vieira: um primor da Editora Mondrongo

A iniciativa da proposta ao editor Gustavo Felicíssimo, que acenou positivamente, fez o projeto crescer em vontade e zelo.

Bom lembrar que a editora de Felicíssimo nos rememora a saudosa Massao Ohno Editora, que tantos livros lindos nos brindou nos anos 80, com um cuidado gráfico e amor em editar poesia, know how que salta aos olhos até hoje, a despeito da evolução dos projetos gráficos atuais.

Poesia Completa de Iara Vieira teve lançamento oficial pelo canal da Mondrongo no Youtube, no dia do aniversário da autora, 9 de abril, às 19h, com um time de participantes que muito comungaram da convivência cultural e fraternal de Iara Vieira.

Estiveram ali o poeta e psicanalista Marcos Moura Vieira, os coordenadores da edição e o editor, com participação da escritora Suzana Vargas.

A publicação da obra poética de Iara abrange a produção de uma das autoras significativas da literatura contemporânea publicada em Sergipe a partir dos anos 70.

O que se revela nessa Poesia Completa de Iara Vieira é o valor inconteste de sua unidade, singularidade, coerência formal e temática em cinco livros de poemas que almejam, segundo minha percepção, “a confluência entre o lirismo de Cecília Meireles e a objetividade de João Cabral”. Iara sabia do seu riscado e dos seus desafios.

Particularmente, muito me apraz edições reunidas, obras completas e congêneres. É uma forma de buscar a inteireza da caminhada num só apanhado e, no caso desta autora, honra seu legado de luta pela literatura enquanto expressão de vida, mesmo entrincheirada em edições paridas com dificuldades de tempos ad/versos e de deseducação.

De sua inquietude de estreia com Ruínas (1977) à obra póstuma A íntima humanidade (2003), eis sua reapresentação: na imortalidade fênix da linguagem.

E renasce com novidade: abre-se no livro a ótima surpresa de inéditos de uma safra tão objetiva e contida, escassa por tão rigorosa na feitura. Alguns nunca publicados e outros esquecidos em antologias e jornais.

De um encontro fortuito com o acaso (?) de seus arquivos, encantei-me com textos nunca dantes publicados. Alguns com sua caligrafia tão peculiar misturada às letras de uma Olivetti antiga, alinhavando nexos e insights, revelaram-se um presente redivivo para seus leitores. Viva Iara!

Iara Vieira emprestou corpo e alma à literatura brasileira feita em Sergipe

A edição de Poesia Completa de Iara Vieira ficou linda, esmerada, é a possibilidade de realização de um sonho desde o falecimento da autora para justiçar sua ação cultural em nosso tempo.

Iara Vieira além de professora e já no magistério começou um trabalho tão esmerado quanto brilhante como agente de cultura: promoveu seminários, oficinas de criação e desenvolveu diversos projetos como “O escritor mais perto do estudante: uma experiência viva”.

Através deste feito, trouxe a Aracaju nomes expressivos do cenário literário nacional, como Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Marina Colassanti, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão, Osman Lins, Afonso Romano de Sant’Anna, Renata Pallottini, entre outros.

Iara colocou Sergipe no mapa da literatura de então e deu voz e vez a uma geração de talentos. Essa ação cultural continuou de forma intensa no município de Aracaju e no Estado, em órgãos oficiais, promovendo eventos inesquecíveis e pioneiros, como o Fórum de Poesia, concursos, antologias, oficinas e publicação de novos (quando publicar era muito mais difícil).

Portanto, Iara Vieira não foi só uma poeta de brilho diferenciado. Foi também uma missionária da causa literária. Nessa poesia completa dela, um apanhado valioso, sua herança mais nobre, mostra-se sua fisionomia poética por inteiro, emoldurada por uma fortuna crítica colhida ao longo da carreira que reafirma justiça e gratidão ao seu trabalho.

A poesia de Iara Vieira se consolida para todas as gerações, mormente as futuras, sedentas por águas tão raras quanto cristalinas.

[*] É poeta, autor de “Questão de Íris” e “Litorâneos”, artista visual, crítico de arte e um dos coordenadores da edição da Poesia Completa de Iara Vieira.

 

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Ubirajara Dias Cruz
Temos uma universidade conservadora que reproduz a literatura de forma sistemática, a escola por sua vez legítima essas ações. A escola pública é para a população pobre. Não há segredos , as artes dentro da escola São para cumprir a carga horária e tudo isso bem pensado pela classe dominante, o resultado é o que temos ai
Telma Siqueira
Parabéns a todos os envolvidos em tão importante e bem vinda publicação.
Léo Mittaraquis
Homenagem das mais justas e necessárias. Texto elegante, como bem merece a memória da grande poeta Iara Vieira.
Tânia
Obrigada. Vou procurar esse obra da Iara. Parabéns, sua crítica foi completa! Preocupada em não deixar nada passar despercebido. A poetisa sergipana mereceu isso.
Suzana Vargas
Parabéns aos editores, parabéns a Aracaju por trazer à tona essa grande personalidade das letras sergipanas. Iara Vieira merece todo o reconhecimento pelo valorares sua poesia e pelo trabalho incansável de inserir Sergipe no panorama literário brasileiro!