Aparte
Opinião - Monte Alegre, 1988-2020: crônica de tragédias eleitorais e falsas esperanças (III)

[*] Jean Marcos da Silva
 
Após um intervalo de aparente esperança seguida de desilusão, coincidente com o mesmo sentimento a nível nacional e estadual, a política local de Monte Alegre voltaria a ver a ascensão de velhos personagens que, mesmo derrotados, não estavam fora de combate.
 
No repetitivo e ao mesmo tempo agitado cenário político-eleitoral de Monte Alegre, a eleição de 2012 consagra o desgaste de dois mandatos consecutivos do grupo dos herdeiros políticos de Edmilson e Mané de Dé e a pequena vantagem de sempre retorna para o lado adversário: Tonhão vence 51,9% - 4.108 dos votos válidos -, enquanto Nena teve 45,2% - 3.574.
 
A vantagem foi um pouco maior que a corriqueira e a verificada nas décadas anteriores, mas se deveu à presença de uma terceira chapa, de dissidentes ideológicos, que obtivera 2,9% dos votos válidos - 226 votos.
 
Esses dissidentes petistas, Geraldo e Haroldo, foram os primeiros que, de fato, lançaram uma terceira via local. As outras candidaturas alternativas em eleições anteriores obtiveram apenas 8 votos - um tal Paulino Souza, em 1992 - e 17 votos - Waltemberg, servidor estadual e uma espécie de memorialista local, em 2008.
 
Pelo perfil de seus programas, de suas campanhas e das pessoas que declararam voto e que estiveram presentes em seus atos de campanha, deduz-se que essa chapa alternativa foi votada por eleitores opositores ao grupo de Osmar-Tonhão. Assim, a maior margem de vitória de Tonhão - 6,7% - explica-se pela honrosa campanha dos dissidentes.
 
Tonhão, no entanto, não fez o que se pode chamar de uma administração estupenda, marcante, tornando um pouco menos difícil, assim, sua derrota em 2016 para Nena. Esta teve 49,5% dos votos válidos - 4.504 -, enquanto ele teve 44,4% - 4.041 -, uma diferença de 5,1%.
 
Com Nena tendo conseguido incorporar os dissidentes ideológicos anteriores, dessa vez ambos os grupos viram surgir um outro candidato com um mínimo de densidade eleitoral. Não tendo fortes raízes no lugar, sendo apenas um advogado previdenciarista que atua em várias praças sergipanas, João Thierry juntou-se com um marchante popular na cidade, tomando-o como vice. Juntos, obtiveram 6,2% dos votos válidos - 563 votos. À época circulou a hipótese de que sua candidatura foi lançada numa estratégia do PDT, seu partido, de fincar bases no interior.
 
Esses antecedentes são necessários para explicar a dinâmica da eleição de 2020, ainda em curso. João Vieira apoiou Nena e seu marido Luciano em 2012 e 2016. Em política eleitoral, sabemos que apoios dados são apoios retribuídos. Essa parecia ser a expectativa do ex-prefeito em relação a seus aliados. Mas estes pareciam achar que a nova prefeita teria direito a tentar a reeleição. Desse conflito de desejos, viria a ruptura, já comentada nas ruas no dia da vitória em 2016.
 
Sabendo dessa intenção de João Vieira, aparentemente seus ex-aliados alijaram-no da administração, não dando espaços para ele e sua esposa, Valdirene, eleita vice-prefeita de Nena em 2016. Assim, não contariam com os louros de eventuais sucessos da gestão, nem aumentariam seu capital político.

Era o início de um processo de rachaduras nas elites políticas locais, que conformariam o cenário presente da política municipal. Precisamos conhecer, então, os desdobramentos dessas guerras internas e concluir este já longo relato.

[*] É graduado em Ciências Sociais pela UFS e professor efetivo de Sociologia da rede pública estadual de Alagoas.

 

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