Aparte
Opinião - Criticamos os pressupostos da ditadura do proletariado. Temos de criar um outro sonho

[*] Marcélio Bomfim

Antes de acontecerem as mais graves mudanças nos países do Leste Europeu, já nos manifestávamos favoravelmente à ruptura da visão tradicional da esquerda, que considera “a violência como a parteira da história” e acha que os conflitos de uma sociedade serão resolvidos através da violência.

Apesar de formados na escola marxista, rompemos drasticamente com seus princípios, com as ideias às quais nos filiamos há muito tempo. Criticamos a ideia pela qual a sociedade humana teria um fim absoluto, caminhando para o paraíso na terra. Essa visão nega o desafio do indivíduo, do ser humano. Enfim, da vida.

Criticamos a visão marxista-leninista entendida, no seu ideário, como única compreensão filosófica do mundo. Hoje não nos filiamos mais a uma única visão. O marxismo foi e é importante como instrumento de compreensão e crítica da realidade, mas entendemos que tínhamos e ainda temos que ler os autores anteriores e posteriores a Marx, que foram colocados à margem pela ortodoxia marxista.

Criticamos o conceito tradicional de revolução, que entende como um estalo, uma ruptura catastrófica e confrontista. Entendemos que a revolução ocorre nos avanços e nos recuos da nossa prática cotidiana na disputa política.

Criticamos a ideia de guerra civil e da luta armada como proposta de um partido para a sociedade.

Criticamos os pressupostos da ditadura do proletariado, do partido único e da missão historicamente determinada do proletariado e da luta de classes.

Criticamos, por fim, o discurso anticapitalista, retórico, baseado nas ilusões do “socialismo estatal”, ou numa religiosidade pré-capitalista.

Pessoalmente, consideramos esgotados o modelo dos partidos de esquerda e o modelo de socialismo adotado pelo Leste Europeu.

Hoje nos definimos como socialista e humanista que busca pautar sua atividade política num conceito revolucionário de emancipação da humanidade e do indivíduo.

Consideramo-nos um revolucionário em nossas atitudes em relação à vida, à sociedade, às relações humanas e às relações políticas.

Mais que isso: nos levantamos contra qualquer tipo de injustiça, de miséria, de discriminação. Recusamo-nos a uma filiação doutrinária única e nos consideramos um ser plural em relação às várias interpretações sobre a sociedade - dentro, ou fora, do leito marxista.

O PCB, matriz de toda a esquerda brasileira, tem que ser um outro partido que resgate o ideário mais avançado das revoluções burguesas e os ideais generosos das revoluções socialistas. Tem de criar um outro sonho.

O outro partido deverá superar a social-democracia, pois também esse modelo não resolveu os grandes desafios da humanidade.

A social-democracia, na Europa, acabou com o totalitarismo, mas se reduziu a administrar o capitalismo. O outro partido tem que construir o consenso, o convencimento, o entendimento.

É preciso resgatar a revolução no sentido das transformações decorrentes de mudanças parciais e de mudanças globais.

Tem que entender a revolução como um processo de construção de alternativas sócio-políticas-econômicas, através dos instrumentos disponíveis na sociedade moderna, como as disputas eleitorais e os movimentos da sociedade civil.

Reforçamos a ideia do conflito, pois caso esse deixe de existir, deixará também a sociedade de existir como  sociedade civil.

Temos que recolocar no centro do projeto socialista a visão da liberdade - liberdade como valor, como autonomia do indivíduo - e da democracia como valor universal.

Da nova concepção de socialismo deve fazer parte a alternância de poder, pois se o socialismo é uma possibilidade, essa possibilidade está permanentemente em disputa com posições contrárias.

A título de exemplificação, podemos citar o caso da Nicarágua, quando, no processo eleitoral, os sandinistas perderam o pleito para Violeta Chamorro.

Se por um lado, a derrota dos sandinistas representou um recuo político, por outro lado, a realização das eleições, foi um ato positivo.

O outro partido deve entender liberdade e democracia como meio e fim. Como não se pode admitir o socialismo sem a presença desses dois elementos, há de se admitir também a hipótese de um eventual governo socialista ser sucedido por um governo capitalista e vice-versa.

Esse outro partido deve buscar a formação de uma sociedade plural, onde deverão estar contempladas as questões de democracia, da liberdade, da igualdade e da justiça social, e tem que dar conta da propriedade.

Nesse particular, há de defender a combinação de várias formas de propriedade, mas com a preocupação de que devem existir vários sujeitos na posse dela.

No capitalismo, especialmente no capitalismo brasileiro, o direito de propriedade restringe-se a apenas um sujeito.

Nessa outra concepção de partido, na sociedade socialista deverá haver a combinação das propriedades estatal, individual, cooperativa, auto-gestora, etc.

Não podemos mais trabalhar com as ideias de propriedade absoluta, tampouco com o pretenso socialismo de Estado. Não aceitamos que o Estado diga às pessoas o que elas devam consumir.

O cidadão tem que ter autonomia. Também não aceitamos a selvageria do livre mercado, onde o lucro e a competição vão aniquilá-las, da mesma forma que a seus direitos sociais.

O primado da economia não é o do direito da propriedade, do mercado e sim o da satisfação das necessidades materiais, das necessidades humanas.

Se o lucro serve para a ampliação do mercado de trabalho, para investimento em pesquisas, etc., deve ser discutido, uma vez que ele não poderá ser apossado individualmente para criar uma casta de privilegiados, enquanto a maioria fica entregue à fome.

Por fim, o outro partido deverá preencher uma lacuna que existe hoje no país: a urgência de um outro partido de esquerda moderno, democrático, com propostas claras e credibilidade popular, capaz de influenciar, a nível político, as grandes questões nacionais e internacionais e as lutas populares locais.

E que possa ter a iniciativa das reivindicações da população, da esquerda e das demais correntes progressistas e democráticas. As referências políticas de “esquerda e direita” continuarão presentes na história.

Negar essas referências é não entender e até mesmo desconhecer valores, prendendo-se, unicamente, à tese da continuidade de conteúdos passados e seus conflitos, sem compreender que, obrigatoriamente, serão outros, porque diversa também será a realidade.

No século atual, a esquerda será um movimento de ideias e ações políticas fundamentado nos valores de liberdade, igualdade, fraternidade, e do que melhor produzir a civilização em termos de conquistas democrática e humanitária.

Claro, será pluralista e mais aberta às dimensões da individualidade. A outra esquerda passará das fronteiras partidárias e será, também, espaço mais aberto da cidadania e da sociedade civil.

Sua missão internacionalista será concretizada não mais por interesse de classes e sim pela afirmação das culturas nacionais e da radicalidade democrática.

A esquerda do século XX já terminou nos anos 80, encerrando a época de ouro do capitalismo. A outra esquerda será construída sobre os escombros do passado. A esquerda e a revolução são conceitos relativamente novos na história da humanidade.

O primeiro conceito, esquerda, iniciou com a Revolução Francesa, em 1789. E o segundo, surgiu inicialmente no século XVII, com a Revolução Inglesa, 1640, mas se consolidou, pratica e teoricamente, nas revoluções americana, 1775, e francesa, 1789, no século XVIII, com o grande movimento transformador das estruturas econômicas, sociais e culturais, fundada em decisões políticas e conscientes.

Não podemos esquecer da Revolução Russa de 1917, que no dia 25 de outubro 2021 fará 104 anos. A revolução científica e tecnológica alterou profundamente as estuturas materiais da produção.

Isso exige também  da esquerda uma revolução interior ideologicamente para responder às novas questões relativas à liberdade, à igualdade e à fraternidade e à busca da felicidade.

A outra esquerda será revolucionária. livre do burocratismo, do corporativismo e do oposicionismo, que marcou a velha esquerda, na segunda metade do século XX.

As suas características mais essenciais serão no terreno do humanistmo e da universalidade. Esses valores serão fundamentais para fazer frente aos riscos de uma barbárie, possibilidade presente no processo e globalização.

A outra esquerda será utópica, libertadora e igualitária. Cabe a todos nós continuar lutando por uma sociedade humana e igualitária, como já dizia Gramsci: “Devemos ter o pessimismo da razão e o otimismo da vontade para construir uma nova sociedade que não será igual em todos os países, mas que será uma sociedade estruturada na democracia e na igualdade, e será socialista”.

[*] É ex-vereador de Aracaju e histórico militante político.

 

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