Aparte
Osmar Terra reafirma postura negacionista e admite que responsabilidade final é do presidente

Alessandro Vieira diz que "coragem e postura" devem prevalecer à "subserviência"

Apontado como "padrinho" do suposto "gabinete paralelo" que orientou o presidente na condução da pandemia, e visto como conselheiro próximo do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Osmar Terra, MDB-RS, reafirmou que o distanciamento e o isolamento social - considerados pilares no combate à doença - não ajudam a evitar a propagação do vírus. "O senhor como profissional e gestor de saúde tem alguma dúvida de que a redução de mobilidade e medidas de distanciamento social ajudam a reduzir a propagação do vírus?", perguntou o senador Alessandro, mais de uma vez, durante depoimento na CPI da Covid.

"Numa pandemia não reduz, não reduz - como não reduziu", insistiu Terra, que é médico. Alessandro Vieira prometeu encaminhar a Osmar Terra estudos publicados na Science, Nature e Lancet, principais publicações sobre política científica do planeta, todos apontando eficiência de medidas de redução de mobilidade e isolamento.

Diante da insistência de Osmar Terra, discurso repetido ao longo de todo o depoimento, de que o governo federal não teve poder de decidir nada por causa de decisão do Supremo Tribunal Federal, que assegurou a Estados e municípios a autonomia para tomar medidas contra a propagação da doença - o deputado omitiu que a medida não eximiu a União de realizar ações -, o senador perguntou se o governo federal apresentou algum projeto ou planejamento de ação que foi impedido de execução pelo Supremo. Terra admitiu que não.

"Não estamos discutindo diferença de opiniões aqui, mas políticas públicas - se a política pública adequada foi adotada no combate à pandemia", afirmou o senador. Alessandro Vieira lembrou que, como gestor da Saúde no Rio Grande do Sul, por oito anos, Osmar Terra enfrentou uma pandemia recente, da gripe H1N1 - e que seu estado teve o 3º pior resultado do Brasil.

Alessandro Vieira quis saber de Osmar Terra se ele, como secretário de Saúde - função que ocupou na admnistração de Yeda Crusius -, aceitaria uma interferência política em seu trabalho que fosse contrária ao seu entendimento técnico. Foi esse desentendimento que levou à saída de dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e à tarde, Nelson Teich. "Eu ia tentar convencer a pessoa a não fazer. Ou eu tenho razão, ou o outro tem razão", disse. "Eu nunca fiz nada que contrariasse princípios e convicções minhas", completou.

Ao falar especificamente de Mandetta, que diz ter ajudado a indicar, emendou. "Sempre achei que o mais importante não era trocar o ministro, mas manter e ganhar o ministro, e discutir ideias que estivessem de acordo com o presidente. Quem tem a responsabilidade de conduzir é o presidente. Se der errado o culpado sempre vai ser o Presidente", admitiu Terra. 

"O senhor  prestou uma grande contribuição para essa CPI, e para o Brasil, ao esclarecer que o presidente, se informando pelos meios que ele escolha, é o único responsável pelas decisões que toma. Não é uma pessoa com problemas mentais, até onde se sabe, e toma decisões como gestor dessa República", apontou o senador, para quem um técnico nunca deve se adaptar a interesses políticos. "Essa desconexão entre o técnico e o político exige coragem e postura, nunca subserviência. Ninguém se elege imperador do Brasil", completou.

Foto: Pedro França/Agência Senado